Universidade nada pública

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O fato de uma universidade ser federal, em absoluto não quer dizer que ela é do público.

Ela é, provavelmente, ‘menos’ do público do que uma universidade privada.

Enquanto a universidade privada precisa competir pela preferência dos futuros estudantes, mantendo uma boa reputação quanto à formação que estes terão e preservando aspectos relacionados à atendimento e satisfação do usuário. A universidade pública caga e anda para a opinião dos estudantes que são usuários de seu serviço, pois o emprego dos funcionários que gerenciam esta instituição não dependem da satisfação de ninguém, após aprovados no concurso público, que lhes garante estabilidade e um salário de 3 a 8 vezes acima da média de mercado, eles adquirem também uma carta branca para a incompetência e descaso.

O término do vestibular da UFSM e a adoção de um regime de quotas em 50% não deveria ser uma surpresa. Tampouco o fato de essa decisão ser tomada um dia antes do término das inscrições para o Enem, estudantes que porventura tenham se sentido desrespeitados ou negligenciados não interessam, a universidade não é do público, ela é da facção estatal que a controla.

As universidades federais e o sistema público de ensino são um antro de cafajestes corporativos. Com raras exceções, os cargos de coordenação e gestão nas instituições públicas são uma assustadora mostra do quanto a mediocridade e a ausência de caráter podem prosperar em um ambiente que não permite a demissão e premia as relações políticas.

A escolha de abandonar a produção própria do vestibular vai de encontro com uma diretriz nacional do MEC, principal órgão de doutrinação nacional e provedor dos recursos dessa instituição. Logo, além de não causar surpresa, cabem poucas considerações a respeito.

A outra alteração refere ao sistema de cotas, e também não é surpresa alguma, inclusive, esta instituição poderia destinar 100% de suas vagas para alunos da rede pública, o que é uma tendência, e isso ainda seria coerente com os propósitos escusos desse tipo de instituição.

A única curiosidade que cabe discutir são os impactos dessa mudança e os objetivos implícitos que não surgiram na discussão com o público.

Ao diminuir as vagas para estudantes de escolas privadas nas universidades federais (que foi o que ocorreu ao se estabelecer 50% de vagas para cotistas), o governo retira os incentivos para que os pais desses alunos os matriculem em escolas privadas e os incentiva a ir para as escolas públicas. Escolas essas com problemas quanto ao número de vagas, infraestrutura e falta de professores, entre outros.

Porém, o governo garante que o mecanismo de doutrinação criado pelo MEC funcione de maneira ainda mais eficiente, pois os currículos das escolas públicas devem seguir rigorosamente a cartilha socialista do MEC. Acaba assim a ligeira liberdade que as instituições privadas possuem para educar os alunos sem um viés marxista permeando todos os conteúdos. Por isso não é surpresa ver políticos de esquerda enaltecendo esta medida, essa medida é o que os garantirá no poder por mais 20 a 40 anos, é de se esperar que os únicos favorecidos desse chabadá louvem isto.

Além disso, o objetivo da medida, que é o de promover a inclusão, não será alcançado.

O número reduzido de vagas seguirá o mesmo e o fator que talvez seja o que mais contribui para a exclusão de alguns públicos de certos cursos não será alterado.

Os cursos considerados ‘elitistas’, seja lá o que isso queira dizer em um país miserável como esse, são diurnos, o que impede que o estudante trabalhe durante sua graduação. Estudantes de baixa renda não podem se dar ao luxo de passar 4 anos após concluírem o ensino médio sem trabalhar. Quando precisei escolher o que cursar na minha graduação, optei pelo curso se Administração em detrimento do curso de Engenharia Civil por este critério.

O curso de engenharia era diurno, então optei por Administração de Empresas que permitiria que eu trabalhasse durante o dia e estudasse a noite.

Quanto às cotas raciais tampouco cabe discutir. Ou melhor, ‘cota de cú é rola’. Esse conceito de direito determinado pelas características de um grupo, pela cor ou etnia é uma estupidez grosseira.

Alguém que defende as cotas não pode criticar outros grupos de supremacistas raciais, como neonazistas, por exemplo, pois ambas as posturas compartilham o mesmo princípio de determinismo racial. Um princípio errôneo e nojento, que lega ao indivíduo uma herança que não é dele. Todo racista é alguém que não se reconhece como indivíduo, que quer adquirir direitos herdados de antepassados, que quer receber recompensas por penas sofridas por pessoas que nem conheceu.

Ayn Rand dizia que, ‘um grupo, como tal, não tem direitos. Um homem não pode, nem adquirir direitos por se unir a um grupo, nem perder o que já possui. O princípio dos direitos individuais é a única base moral de todos os grupos ou associações. Todo grupo que não reconhece este princípio não é uma associação, mas uma quadrilha ou uma gang’[1]. Os grupos militantes dessa causa não passam disso, quadrilhas em busca de benefícios imerecidos.

Milton Friedman disse que a solução do governo para um problema é, geralmente, pior que o próprio problema. Isso ficou evidente nessa decisão. A questão dos cursinhos pré-vestibulares pouco ou nada me interessa, estes seguirão existindo. Tampouco a questão das cotas, que contam com ampla popularidade. Meu único interesse nesse caso é o mindset, o modelo mental predominante, o fato das pessoas ainda se iludirem com a perspectiva de que as instituições públicas se importam com as reais necessidades das pessoas é impressionante. Não. O sistema público de educação só serve para atender a ele próprio. É como um câncer que se retroalimenta.

Doutores orientadores querem orientandos produzindo conteúdo em massa para engrossar o caldo do seu lattes e abrindo caminho para mais uma polpuda bolsa; secretários de educação trabalham para atender interesses ideológicos, produzindo planos de curso que doutrinem os estudantes com um viés esquerdista, para que estes produzam teses sobre marxismo cultural, dialética kantiana ou idiotices sobre Gramsci que sigam mantendo os regimes populistas no poder; políticos querem garantir que a população cresça e eduque-se acreditando na necessidade e importância da existência de um governo, e que questionem cada vez menos o fato de pagarem bilhões em impostos para sustentar uma casta de incompetentes.

Aos pais. Cuidem de seus filhos, revisem o sonho da faculdade pública, considerem os cursos de formação técnica ou cursos em algumas das raras universidades privadas que ainda preservam princípios morais e trabalhem conteúdos que tornem seus filhos homens capazes econômica e intelectualmente, e moralmente dignos. Não permitam que o ensino público transforme seus filhos em parasitas que tenham como a maior ambição na vida a de viver a custas dos outros após aprovar em um concurso público.

 

[1] Ayn Rand – A Virtude do egoísmo. 1961

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O ressentimento da ambição frustrada

Pseudo-RevolucionarioO ressentimento da ambição frustrada

Podemos agora tentar compreender por que as pessoas detestam o capitalismo.
Numa sociedade baseada em castas e status, o indivíduo pode atribuir o destino adverso a condições cujo controle lhe escapa. É escravo porque os poderes sobre-humanos que tudo comandam designaram-lhe essa posição. Não depende dele, e não há motivos para que se envergonhe de sua sujeição. Sua mulher não o pode culpar por estar nessa categoria. Se ela disser: “Por que você não é um duque? Se fosse um duque, eu seria duquesa”, ele responderá: “Se eu tivesse nascido filho de um duque, jamais me casaria com você, uma escrava, mas sim com a filha de outro duque; se você não é duquesa, é exclusivamente culpa sua; por que você não soube escolher melhor os seus pais?”
No regime capitalista a coisa é outra. A situação de vida de cada um depende de seus próprios feitos. Quem não tiver suas ambições plenamente satisfeitas sabe muito bem que deixou escapar as oportunidades, que foi testado e considerado inapto por seus semelhantes. Se sua mulher o censura: “Por que você recebe apenas oito dólares por semana? Se fosse esperto como o seu colega Paulo, você seria chefe de seção e eu desfrutaria melhores condições de vida”, ele toma consciência da própria inferioridade e se sente humilhado.

A tão falada dureza do capitalismo consiste no fato de ele tratar cada um de acordo com a contribuição que este oferece ao bem-estar do seu semelhante. A força do princípio a cada um de acordo com seus feitos não dá margem a escusar falhas pessoais.

O indivíduo sabe muito bem que existem pessoas iguais a ele que obtiveram sucesso onde ele falhou. Sabe que muitos daqueles que inveja são pessoas que se fizeram pelo próprio esforço e que partiram do mesmo ponto onde ele começou. E, muito pior, sabe que os outros também sabem disso. Ele vê nos olhos da mulher e dós filhos a reprovação silenciosa: “Por que você não foi mais esperto?” Ele vê como as pessoas admiram quem obteve mais sucesso do que ele e como contemplam com desprezo ou com piedade o seu fracasso.

O que faz com que muitos se sintam infelizes no capitalismo é o fato de que este dá a cada um a oportunidade de chegar aos cargos mais cobiçados que, é claro, só serão alcançados por alguns. Tudo o que o homem consegue ganhar é sempre mera fração do que a sua ambição o impeliu a ganhar. Existem sempre diante de seus olhos pessoas que venceram onde ele falhou. Existem companheiros que o sobrepujaram e contra quem ele nutre, no subconsciente, complexos de inferioridade. Esta é a atitude do vagabundo contra o homem que tem emprego fixo, do operário contra o chefe de seção, do executivo contra o vice-presidente, do vice-presidente contra o presidente da empresa, do homem que ganha 300.000 dólares contra o milionário, e assim por diante.

A confiança em si mesmo e o equilíbrio moral de todos são solapados pelo espetáculo dos que deram provas de maior habilidade e capacidade. Cada qual está ciente de suas próprias derrotas e deficiências.

A longa lista de autores alemães que rejeitaram radicalmente as ideias “ocidentais” do Iluminismo e a filosofia social do racionalismo, utilitarismo e do laissez-faire bem como as políticas desenvolvidas por essas escolas de pensamento começa com Justus Möser.

Um dos novos princípios que provocaram a ira de Möser foi a exigência de que a promoção dos oficiais do exército e dos funcionários públicos fosse baseada no mérito e habilidades pessoais, e não na ascendência, linhagem nobre, idade e tempo de serviço do beneficiado. A vida numa sociedade em que o sucesso dependa exclusivamente do mérito pessoal seria, segundo Möser; simplesmente insuportável. Tal como é a natureza humana, as pessoas são propensas a superestimar seu próprio valor e méritos. Se a situação de vida de uma pessoa estiver condicionada por outros fatores além de uma superioridade inerente, quem estiver nos graus inferiores da escala pode aceitar esse resultado e, ciente de seu próprio valor, ainda preservará sua dignidade e autorrespeito. Mas será diferente se tudo depender apenas do mérito. Nesse caso, os malsucedidos sentir-se-ão insultados e humilhados. Surgirão ódio e animosidade contra quem os sobrepujou.[1]

O sistema de preços e de mercado do capitalismo é um tipo de sociedade na qual o mérito e os empreendimentos determinam o sucesso ou a derrota do homem. Independente do que se pense do preconceito de Möser contra o princípio do mérito, deve-se admitir que ele estava certo ao descrever uma de suas consequências psicológicas. Ele percebeu os sentimentos daqueles que foram testados e considerados incompetentes.

No intuito de se consolar e de restaurar sua autoafirmação, a pessoa procura um bode expiatório. Tenta convencer-se de que falhou mas não por culpa própria. Acha-se tão brilhante, eficiente e ativa quanto os que a ultrapassam.

Lamentavelmente esta nossa abominável ordem social não recompensa os homens de maior mérito; ela coroa o salafrário desonesto e inescrupuloso, o trapaceiro, o explorador, o “individualista grosseiro”.O que o fez fracassar foi sua honestidade. Era decente demais para recorrer aos golpes baixos aos quais seus bem-sucedidos rivais devem a supremacia. Nas condições do capitalismo, o homem é obrigado a optar por virtude e pobreza ou por imoralidade e riqueza. Ele, graças a Deus, escolheu a primeira alternativa e desprezou a segunda.

A busca de um bode expiatório é a atitude das pessoas que vivem sob uma ordem social que trata todos de acordo com sua contribuição para o bem-estar de seus semelhantes e na qual, portanto, cada um é a origem de sua própria sorte, neste tipo de sociedade, cada indivíduo cujas ambições não tenham sido totalmente satisfeitas odeia a sorte de todos os que conseguiram mais êxito. O tolo libera esses sentimentos através da calúnia e da difamação. Os mais sofisticados não descambam para a calúnia pessoal. Sublimam seu ódio numa filosofia, a filosofia do anticapitalismo, a fim de calar a voz interior que lhes diz que, se falharam, é totalmente por culpa própria. Seu fanatismo ao criticar o capitalismo está exatamente no fato de eles lutarem contra á consciência que têm da falsidade dessa critica.
O sofrimento causado pela ambição frustrada é peculiar às pessoas que vivem numa sociedade de igualdade perante a lei. Não é a igualdade perante a lei que provoca isso, mas sim o fato de, numa sociedade desse tipo, a desigualdade dos homens em relação às suas habilidades intelectuais, à sua força de vontade e à sua experiência prática tornar-se visível. A distância entre o que o homem é e o que realiza, por um lado, e o que, por outro lado, ele pensa de suas próprias habilidades e realizações é impiedosamente revelada. Sonhar com um mundo mais “justo”, que o trate de acordo com seu “real valor”, é o refúgio de todos que têm falhas de autoconhecimento.

O ressentimento dos intelectuais

Geralmente o homem comum não tem ocasião de conviver com pessoas que tenham tido mais êxito do que ele. Convive com outros homens comuns. Jamais se encontra, na vida social, com o seu chefe, nunca aprende por experiência própria quão diferentes são um empresário ou um executivo com respeito às habilidades e competência necessárias para um atendimento eficaz dos consumidores. Sua inveja e consequente ressentimento não estão voltados contra um ser vivo de carne e osso, mas contra pálidas abstrações como “administração”, “capital” e “Wall Street”. É impossível detestar tais fantasmas, com sentimentos tão amargos quanto se pode ter contra um semelhante a quem se encontre diariamente.

O mesmo não acontece com as pessoas que, por condições especiais de profissão ou por laços familiares, estão em contato pessoal com os vencedores de recompensas, as quais, segundo elas, por direito, lhes deveriam ter sido outorgadas, nessas pessoas, os sentimentos de ambição frustrada tornam-se particularmente dolorosos pois geram ódio contra seres vivos e concretos. Detestam o capitalismo porque conferiu a um outro homem a posição que elas gostariam de ter.

É o que acontece com as pessoas normalmente chamadas de intelectuais. Tomemos o exemplo dos médicos. A rotina diária e a experiência fazem com que todos eles estejam cientes do fato de que existe uma hierarquia na qual os membros do corpo médico são classificados de acordo com seus méritos e esforços. Os mais qualificados do que ele, aqueles cujos métodos e descobertas ele deve assimilar e praticar a fim de se manter atualizado, foram seus colegas de faculdade, de estágio no internato, e juntos participam dos congressos de associações médicas. Encontra-se com eles à cabeceira dos pacientes bem como em reuniões sociais. Alguns são seus amigos pessoais ou seus conhecidos, e todos se comportam com ele com a maior amabilidade, tratando-o de caro colega. Estão, porém, muito acima dele na apreciação do público e quase sempre também na importância dos rendimentos. Eles o sobrepujaram e agora pertencem a uma outra classe de homens. Quando se compara a eles, sente-se humilhado. Mas deve policiar-se com cuidado a fim de que ninguém perceba seu ressentimento e inveja. Mesmo a mais leve indicação de tais sentimentos seria considerada como péssimas maneiras e o depreciaria aos olhos de todos. Deve dominar esse aborrecimento e desviar sua indignação para um outro alvo. Ele denuncia a organização econômica da sociedade, o abominável sistema capitalista. Se não fosse esse regime injusto, suas habilidades e talentos, seu zelo e seus feitos lhe teriam proporcionado a alta recompensa que merece.

O mesmo acontece com muitos advogados e professores, artistas, escritores, jornalistas, arquitetos, cientistas, engenheiros e químicos. Também eles sentem-se frustrados por serem atormentados pela supremacia de seus colegas mais bem-sucedidos, seus antigos companheiros de escola e amigos íntimos. O ressentimento torna-se mais agudo justamente por causa dos códigos de conduta e ética profissional que lançam um véu de camaradagem e coleguismo por sobre a realidade da competição.

Para compreender a aversão que o intelectual tem pelo capitalismo, convém lembrar que, na sua opinião, este sistema é encarnado por um certo número de companheiros cujo êxito ele inveja e a quem responsabiliza pela frustração de suas próprias vastas ambições. Sua veemente aversão ao capitalismo não passa de simples subterfúgio do ódio que sente pelo sucesso de alguns “colegas”.

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O MUNDO DO INTELECTO E OS CANALHAS

O MUNDO DO INTELECTO É UMA MORADIA
QUE TEM MUITAS CASAS, E QUASE TODAS
TOMADAS POR CANALHAS

Luiz Felipe Pondé

Sou professor e gosto de dar aula, coisa rara na área. Na maioria dos casos, professores de universidade (ou não) são pessoas que, além de não gostar dos alunos, têm uma inteligência mediana e foram, quando jovens, alunos medíocres, que fizeram ciências humanas porque sempre foi fácil entrar na faculdade em cursos de ciências humanas.

Claro que quase todos pensavam em si mesmos como Marx ou Freud ainda não revelados. Ao final, o que se revela com mais frequência é alguém fracassado que ganha mal e odeia os alunos. Professores normalmente não gostam de ler ou de estudar, mas dizem que esse pecado é apenas dos alunos. Há um enorme sofrimento na maioria dos professores porque têm de fingir o tempo todo que acreditam na importância do que fazem. A maioria sucumbe. Se adicionarmos uma pitada de insegurança à própria capacidade intelectual (refiro-me a uma insegurança maior do que aquela que todos nós temos em alguma medida), teremos o perfil da maior parte dos “funcionários da educação, da arte, da cultura e do intelecto”, e não só dos professores. Tal insegurança associada à quase absoluta falta de originalidade (as quais normalmente vêm juntas) explica em grande parte a razão de o politicamente correto encontrar entre esses “funcionários” seu lar ideal. Claro, afora a covardia, sempre necessária para você se transformar em alguém que persegue os outros porque pensa diferente de você ou porque é melhor do que você. Nada é mais temido por um covarde do que a liberdade de pensamento. Toda forma de totalitarismo (o politicamente correto é uma forma de totalitarismo, e essa forma está presente na palavra “correto”) sobrevive graças às hordas de inseguros, medíocres e
covardes que povoam a educação e o mundo da cultura e da arte.

Na escola, a mediocridade vem regada à busca de novas teorias pedagógicas (normalmente com baixíssimo impacto ou possibilidade de verificação de suas premissas); na universidade, vem vestida de burocracia da produtividade e corporativismo de bando; na arte, nos discursos contemporâneos sobre a “destruição da forma”. Modos distintos de “fazer nada” ocupando tempo e gerando institucionalização e papo-furado cheio de jargão técnico. Mas ela não para aí.

Engana-se quem supõe que a mediocridade não se reproduz de várias formas apenas porque aparentemente a espécie não teria sobrevivido se fosse apenas de covardes. Digo isso por dois argumentos. O primeiro porque os medíocres são maioria, e isso pode ser indicativo de que a covardia foi adaptativa em grande medida. O segundo porque as baratas parecem ser bem adaptadas ao mundo e são maioria absoluta, como já suspeitava Kafka.
A suspeita de que a mediocridade reina entre os funcionários da educação e do intelecto
aparece, por exemplo, na obra de dois grandes intelectuais do século 20, o crítico canadense Northrop Frye e o historiador do pensamento conservador americano Russell Kirk. Frye afirma na introdução do seu monumental Código dos Códigos, seu livro sobre a Bíblia como grande matriz da literatura ocidental, que a universidade é tomada por pessoas de personalidade insegura e medíocre que se escondem atrás de teorias consagradas a fim de garantir seu espaço “intelectual” nas instituições do conhecimento. Não apenas as universidades, mas também a mídia é povoada por pessoas que afirmam o que a maioria quer ouvir, porque isso garante adesões e reduz riscos de confronto. O politicamente correto é um caso típico de opção, por gerar adesões a um discurso autoritário. Basta analisarmos grande parte do que se fala na academia e na mídia para perceber o quanto se repete o mesmo papinho “do bem” que está longe de descrever a realidade, quase sempre intratável ao “Bem”. Para pegar um exemplo da mídia, basta pensarmos em figuras como o atual presidente dos Estados Unidos, Obama, e o ex-presidente do mesmo país, Jimmy Carter (ambos claramente incompetentes em assuntos domésticos e internacionais e “líderes para mulherzinhas”), para ter exemplos claros do que é dizer coisas legais para receber as palmas de jovens e feministas.

Ambos são gente “muito esperançosa” que mais atrapalha do que ajuda, na medida em que desconhece as realidades à sua volta. A incapacidade, por exemplo, de ambos entenderem o Oriente Médio é sofrível – mas voltaremos ao tema quando discutirmos as religiões. A mídia muitas vezes parece uma reunião de centro acadêmico de ciências sociais na forma de simplificar o mundo ao nível de uma menina de 12 anos.
Já Russell Kirk, historiador do pensamento conservador anglo-saxão, nos anos 50 percebia que a universidade corria o risco de virar espaço onde gente “sem posses” busca ascensão social. O que aconteceu. Aqui o que importa não é tanto o “número” de propriedades que alguém tem em seu nome, mas a atitude de “bancário” ou “burocrata” para com a vida universitária.
Sujeito “sem posses”, como descreve Kirk, são pessoas que se apropriam da máquina
institucional da universidade a fim de garantir seu (e de seus amigos) futuro salarial. O “sem posse” aqui implica antes de tudo a ausência de posse intelectual enquanto tal. Kafka diria: cara de rato, alma de barata. Um funcionário como esse teme antes de tudo a inteligência, por isso age de modo violento quando a percebe, muitas vezes em nome do “coletivo” e da burocracia. Desconfio de todo mundo que usa a palavra “coletivo” numa reunião de professores. Juntando os dois argumentos, chegamos à mediocridade enturmada que caracteriza a vida intelectual e acadêmica. Nada há de se esperar da universidade. As ciências duras ainda podem entregar remédios e robots, as ciências humanas não têm nada para entregar. Quando algo de importante nelas acontece, é à revelia das instituições que as sediam. Todos estão quase sempre ocupados com seus miseráveis salários, mas dizem que não. O cotidiano é, assim, corroído pelo esforço do autoengano e da hipocrisia.

Outro tipo mentiroso e politicamente correto é o “artista”. As artes plásticas contemporâneas ajudam muito para isso, na medida em que gente que não sabe desenhar pode ser artista figurativo. Nada que eu consiga desenhar ou pintar pode ser levado a sério como arte figurativa, porque eu não sei pintar ou desenhar nada. Um amigo num caderno cultural importante ou uma tese de doutorado ilegível numa universidade de nome sobre a obra de alguém pode fazer dele um grande artista. A crítica da forma e da coerência na “narrativa estética” (que em si pode sim ter um significado) tornou-se um grande cabide de emprego para artistas falsos, mas bem relacionados.
O que me leva a uma última questão envolvendo esses “funcionários da cultura”. A “ética”.
Todos são muito “éticos” e vão à mídia falar em nome da “ética”. Os acadêmicos, pelo que já  foi dito aqui, não parecem seres muito éticos, ainda mais quando se lembra de que manipulam concursos ao seu bel-prazer. Quanto aos “funcionários da arte”, estes não ficam atrás. Campo com quase zero de institucionalização, é quase sempre marcado por “testes do sofá” e conversas em coquetéis em lugar de qualquer “seleção criteriosa”. Talvez não exista universo menos ético que o da cultura, da arte e da educação, mas graças a Deus ninguém sabe disso, e seus funcionários podem continuar posando de corretos.

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A desigualdade de riquezas e de renda

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“O que mais se critica em nossa ordem social é a desigualdade da distribuição da riqueza e da renda.  Há ricos e pobres; há os muito ricos e os muito pobres.  A solução não está longe: a igual distribuição de toda riqueza.

A primeira objeção a esta proposta é que ela não servirá muito à situação, porque os de poucas posses superam, em muito, o número dos ricos, de tal modo que cada indivíduo nada poderia esperar dessa distribuição, a não ser um aumento insignificante de seu padrão de vida.  Este argumento, sem dúvida, é correto, mas incompleto.  Os que defendem a igualdade de distribuição de renda desconsideram o ponto mais importante, a saber, que o total disponível para a distribuição, o produto anual do trabalho social, não é independente do modo pelo qual é dividido.  O fato de que esse produto alcança seu nível atual não é um fenômeno natural ou tecnológico, independente de todas as condições sociais, mas é, em sua totalidade, o resultado de nossas instituições sociais.  Simplesmente pelo fato de a desigualdade da riqueza ser possível em nossa ordem social, simplesmente pelo fato de estimular a que todos produzam o máximo que possam, é que a humanidade hoje conta com toda a riqueza anual de que dispõe para consumo.  Fosse tal incentivo destruído, a produtividade seria de tal forma reduzida, que a porção dada a cada indivíduo, por uma distribuição igual, seria bem menor do que aquilo que hoje recebe mesmo o mais pobre.

A desigualdade da distribuição da renda, contudo, tem ainda uma segunda função tão importante quanto a primeira: torna possível o luxo dos ricos.

Muitas bobagens se têm dito e escrito sobre o luxo.  Contra o consumo dos bens de luxo tem sido posta a objeção de que é injusto que alguns gozem da enorme abundância, enquanto outros estão na penúria.  Este argumento parece ter algum mérito.  Mas apenas aparenta tê-lo.  Pois, se demonstrarmos que o consumo de bens de luxo executa uma função útil no sistema de cooperação social, este argumento será, então, invalidado.  É isto, portanto, o que procuraremos demonstrar. Nossa defesa do consumo de luxo não é, naturalmente, feita com o argumento que se ouve algumas vezes, isto é, que esse tipo de consumo distribui dinheiro entre as pessoas.  Se os ricos não se permitissem usufruir do luxo, assim se diz, o pobre não teria renda.  Isto é, simplesmente, uma bobagem, pois se não houvesse o consumo de bens de luxo, o capital e o trabalho neles empregados teriam sido aplicados à produção de outros bens: artigos de consumo de massa, artigos necessários, e não “supérfluos”.

Para formar um conceito correto do significado social do consumo de luxo, é necessário, acima de tudo, compreender que o conceito de luxo é inteiramente relativo.  Luxo consiste num modo de vida de alguém que se coloca em total contraste com o da grande massa de seus contemporâneos.  O conceito de luxo é, por conseguinte, essencialmente histórico.  Muitas das coisas que nos parecem constituir necessidades hoje em dia foram, alguma vez, consideradas coisas de luxo.  Quando, na Idade Média, uma senhora da aristocracia bizantina, casada com um doge veneziano, fazia uso de objeto de ouro, que poderia ser chamado de precursor do garfo, como hoje o conhecemos, ao invés de utilizar seus próprios dedos para alimentar-se, os venezianos o considerariam um luxo ímpio, e considerariam muito justo se essa senhora fosse acometida de uma terrível doença.  Isto devia ser, assim supunham, uma punição bem merecida, vinda de Deus, por esta extravagância antinatural.  Há duas ou três gerações se considerava um luxo ter um banheiro dentro de casa, mesmo na Inglaterra.  Hoje, a casa de todo trabalhador inglês, do melhor tipo, contém um.  Há trinta e cinco anos, não havia automóveis; há vinte anos, a posse de um desses veículos era sinal de um modo de vida particularmente luxuoso.  Hoje, nos Estados Unidos, até um operário possui o seu Ford.  Este é o curso da história econômica.  O luxo de hoje é a necessidade de amanhã.  Cada avanço, primeiro, surge como um luxo de poucos ricos, para, daí a pouco, tornar-se uma necessidade por todos julgada indispensável.  O consumo de luxo dá à indústria o estímulo para descobrir e introduzir novas coisas.  É um dos fatores dinâmicos da nossa economia.  A ele devemos as progressivas inovações, por meio das quais o padrão de vida de todos os estratos da população se têm elevado gradativamente.

A maioria de nós não tem qualquer simpatia pelo rico ocioso, que passa sua vida gozando os prazeres, sem ter trabalho algum.  Mas até este cumpre uma função na vida do organismo social.  Dá um exemplo de luxo que faz despertar, na multidão, a consciência de novas necessidades, e dá à industria um incentivo para satisfazê-las.  Havia um tempo em que somente os ricos podiam se dar ao luxo de visitar países estrangeiros.  Schiller nunca viu as montanhas suíças que tornou célebres em Guilherme Tell, embora fizessem fronteira com sua terra natal, situada na Suábia.  [1] Goethe não conheceu Paris, nem Viena, nem Londres.  No entanto, hoje, milhares de pessoas viajam por toda parte e, em breve, milhões farão o mesmo.

[1] Um antigo ducado no Sudoeste da Alemanha.  Hoje em dia um distrito do Sudoeste da Baviera.  (N. do T.)

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Papagaios de pirata

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Não é necessário falar sobre tudo que as redes sociais têm de positivo, o quanto a possibilidade de falar qualquer bobagem que se pensa sem nenhuma interferência, sem nenhum filtro, é, por incrível que pareça, um bastião da liberdade. Uma garantia contra várias formas de totalitarismo. Isso é fantástico, e a simples existência desses meios me faz crer que nós, nossos filhos e netos não passarão horrores com regimes tirânicos como passaram essas, (http://migre.me/dUvJi), essas pessoas (http://migre.me/dUvTP) e como passam os cubanos ainda hoje (http://migre.me/dUvTm)

Apontado isso, gostaria de falar da miopia que assola a nossa geração. O tema recorrente dessas últimas semanas foi a eleição do Marco Feliciano para a comissão dos Direitos Humanos. Veja bem, sou ateu e tenho uma séria restrição quanto a pastores, porém, tudo que tem sido dito me soa tão pretensioso, burro e patético que quase contra minha vontade passo a me colocar a favor dele.

Em primeiro lugar. A grande maioria dos detratores nem sabia que existia no Brasil uma “Comissão de Direitos Humanos” até 2 meses atrás. E não sabia justamente porque essa Comissão é mais um braço burocrático que não precisa existir. A constituição já tem todas as leis que prezem pelo respeito a vida e zelem pelas liberdades individuais. A minha impressão é que esse ataque todo é exclusivamente porque o Feliciano não tem uma posição moderna, politicamente correta. E justamente esses defensores da liberdade imputam uma censura sobre o que o indivíduo disse em um ambiente que não é a comissão.

A bem da verdade a única utilidade que essa comissão de direitos humanos pode ter nesse momento é barrar a PL 122. O Projeto de Lei 122 de 2006 é o projeto que pretende criar os crimes de Homofobia e Racismo, condenando a até 5 anos de prisão quem incorrer nesses “crimes”. Isso é uma piada de mau gosto.

Veja bem, se você for proprietário de uma sorveteria e um casal hétero, branco, estiver se beijando de maneira constrangedora aos demais clientes e você pedir educadamente que eles não façam isso, você não será penalizado, estará no seu direito. Agora, se for um casal homossexual você poderá ser acusado e preso. Se você for dono de um bar, e dois bêbados, um branco e um negro, estiverem perturbando o ambiente e você pedir que eles se retirem, o negro pode processá-lo. Seu bar pode ser fechado e você preso.

Isso é ridículo.

Não vou me defender aqui fazendo as alegações de que não tenho nenhum problema seja com negros, seja com homossexuais, aqueles que me conhecem sabem perfeitamente disso. Meus ranços se resumem a gente autoritária que enxerga a justiça como um leão de chácara para impor suas vontades e costumes aos outros.

Logo, se algo de bom puder ser feito nesse antro de incompetência que são as comissões e especificamente nessa comissão será a não aprovação dessa lei. Ponto.

Somos uma geração de preguiçosos. Formamos nossas opiniões com uma reportagem de 3 minutos.

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Cubano por 30 dias – Patrick Symmes

Com o desafio de passar um mês em Havana com apenas 15 dólares, o repórter norte-americano Patrick Symmes narra seu mergulho na sociedade cubana e os diversos “jeitinhos” a que precisou recorrer para obter comida, se locomover e até mesmo para destilar rum caseiro.

 

NAS DUAS PRIMEIRAS DÉCADAS da minha vida, acho que nunca passei mais de nove horas sem comer. Mais tarde, fiquei sujeito a períodos mais longos de fome, mas sempre voltei para casa, fui recebido com festa, comi tudo o que quis, no momento que quis, e recuperei o peso que tivesse perdido. Além disso, segui a trajetória habitual de uma vida americana, ganhando meio quilo de peso por ano, década após década.

Quando decidi ir a Cuba e viver por um mês consumindo apenas aquilo que um cubano comum pode consumir, meu peso havia atingido 99 quilos; nunca tinha sido tão alto.

Em Cuba, o salário médio é de US$ 20. Médicos chegam a ganhar US$ 30, e muitas outras pessoas ganham só US$ 10. Decidi que me concederia o salário de um jornalista cubano: US$ 15, a renda de um intelectual oficial. Sempre quis ser um intelectual, e US$ 15 representava uma vantagem significativa sobre os proletários que constroem paredes de alvenaria ou cortam cana por US$ 12, e quase o dobro dos US$ 8 da pensão de muitos aposentados. Com esse dinheiro, eu teria de comprar minha ração básica de arroz, feijão, batata, óleo, ovos, açúcar, café e tudo o mais de que precisasse.

A primeira meia hora em solo cubano foi passada nos detectores de metais. Depois, como parte de um novo regime de vigilância que eu não havia encontrado em meus 15 anos anteriores de visita ao país, passei por um interrogatório intenso, porém amadorístico. Não era nada pessoal: todos os estrangeiros que chegaram no pequeno turboélice vindo das Bahamas foram separados do grupo e extensamente interrogados.

Como em Israel, um agente à paisana me fez perguntas detalhadas, mas que não versavam sobre assuntos importantes. (“Para que cidade você vai? Onde ela fica?”). O objetivo era me provocar, revelar incoerências ou causar nervosismo. Ele não olhou minha carteira ou perguntou por que, se eu planejava passar um mês em Cuba, tinha menos de US$ 20 comigo.

O olhar do agente se voltou aos demais passageiros. Eu tinha passado. “Trinta dias”, eu disse à senhora que carimbou meu visto de turista. O prazo máximo.

Havia uma placa pendente do teto do aeroporto, com o desenho de um ônibus. Mas nada de ônibus. Só mais tarde, explicou a mulher da cabine de informações. Haveria um ônibus -só um- naquela noite, por volta das 20h, para levar os funcionários do aeroporto de volta a suas casas.

Eu teria de esperar seis horas. O centro de Havana fica a 16 quilômetros do aeroporto. Porque um táxi custaria US$ 25 –ou seja, mais que o meu orçamento para todo o mês–, eu teria de ir a pé. A mesma mulher tirou do bolso do uniforme duas moedas de alumínio, e me deu: 40 centavos de peso, o equivalente a dois centavos de dólar.

Na rodovia, a alguns quilômetros do aeroporto, eu talvez encontrasse um ônibus para a cidade. E em Havana eu poderia encontrar, ou teria de encontrar, uma maneira de sobreviver por um mês. Ergui a mochila aos ombros e comecei a caminhar, com as moedas de alumínio tilintando no bolso. Saí do terminal e atravessei o estacionamento, chegando à via de acesso.

Comecei a caminhar pela estrada, deixando o mundo externo para trás a cada sólido passo. A intervalos de alguns minutos, táxis se aproximavam, buzinando, ou carros particulares paravam ao meu lado e me ofereciam uma jornada até a cidade por apenas metade do preço oficial. Eu continuei caminhando, devagar, deixando para trás os velhos terminais e contemplando os campos de vegetação esparsa.

Os outdoors trombeteavam mensagens do passado: Bush terrorista. Depois de caminhar 40 minutos, cruzei por sobre os trilhos da ferrovia em uma passarela e, ao chegar à rodovia, tive sorte. O ônibus para Havana estava no ponto. Passada uma hora, eu havia chegado ao centro de Havana e estava de novo caminhando, em busca de um velho amigo.

RACIONAMENTO As primeiras pessoas com quem conversei na cidade –desconhecidos que vivem perto da casa do meu amigo– mencionaram o sistema de racionamento. Sem que eu perguntasse, eles me mostraram suas cadernetas de racionamento e se queixaram bastante.

A caderneta –conhecida como “libreta”– é o documento fundamental da vida cubana. Quase nada mudou no sistema de racionamento: ainda que agora seja impressa em formato vertical, a caderneta é idêntica às emitidas anualmente durante décadas.

O que mudou foi a tinta: havia menos texto na caderneta. O número de itens era menor, e as quantidades também eram menores, menos do que em 1995, a época de fome do “Período Especial”. Desde então, a economia cubana se recuperou, mas o sistema cubano de racionamento ainda não. Em 1999, o ministro do Desenvolvimento de Cuba me disse que a ração mensal oferecia comida suficiente para apenas 19 dias, mas previu que esse total logo subiria.

Na verdade, caiu. Ainda que hoje o volume total de alimentos disponíveis em Cuba seja mais alto e o consumo de calorias per capita também tenha crescido, isso não se deve ao racionamento. O crescimento ocorreu em mercados privatizados e hortas cooperativas, e por meio de importações maciças; a produção de alimentos pelo Estado caiu 13% no ano passado e a ração encolheu junto. A opinião geral é de que a ração mensal hoje só dá para 12 dias de comida.

A minha viagem serviria para que eu fizesse o meu próprio cálculo: como alguém pode sobreviver durante um mês com comida para apenas 12 dias?

CADERNETA Cada família recebe uma caderneta de racionamento. As mercadorias são distribuídas numa série de mercearias (uma para laticínios e ovos, outra para “proteínas”, outra para pão; a maior delas cuida dos enlatados e outros produtos embalados, de café e óleo a cigarros). Cada loja conta com um administrador que anota na caderneta a quantidade de produtos retirada pela família. Os vizinhos do meu amigo –marido, mulher e neto– receberam a ração padronizada de produtos básicos, que consiste, por pessoa, em:

Dois quilos de açúcar refinado
Meio quilo de açúcar bruto
Meio quilo de grãos
Um pedaço de peixe
Três pãezinhos

Riram muito quando perguntei se recebiam carne de vaca.

“Frango”, disse a mulher, mas isso provocou uivos de protesto: “Qual foi a última vez que recebemos frango?”, o marido questionou. “Pois então, é verdade”, ela disse. “Já faz alguns meses.” A ração de “proteína” é distribuída a cada 15 dias e consiste numa carne moída de misteriosa composição, que inclui uma bela proporção de pasta de soja (se a carne for suína, a mistura recebe o falso nome de “picadillo”; se for frango, é conhecida como “puello con suerte”, ou frango com sorte).

A ração basta para o equivalente a quatro hambúrgueres por mês, mas até aquele momento, em janeiro de 2010, cada um só havia recebido um peixe –em geral, uma cavala seca e oleosa.

E há os ovos. A mais confiável das fontes de proteínas, eles são conhecidos como “salva-vidas”. Antigamente, a ração era de um ovo por dia; depois, um ovo a cada dois dias; agora, é de um ovo a cada três dias. Eu teria dez deles como ração para o mês seguinte.

Meu amigo me conduziu a uma residência particular no bairro de Plaza, onde eu alugaria um apartamento por um mês –a única despesa que deixo fora de minhas contas aqui. O apartamento era espartano, em estilo cubano: dois cômodos, cadeiras sem almofadas, um fogareiro de duas bocas numa bancada e um frigobar.

No meu segundo dia, comecei comendo um bagel de gergelim, e distraidamente o devorei inteiro, como se fosse possível comprar outro. De acordo com um aplicativo de contagem de calorias instalado em meu celular, o bagel tinha 440 calorias. Tudo que comi pelos 30 dias seguintes foi anotado com ajuda do pequeno teclado, registrado, tabulado em termos diários e semanais, dividido em proteínas, carboidratos e gordura, avaliado por meio de gráficos de barras. Um homem ativo do meu tamanho (1,88 metro, 95 quilos) precisa de cerca de 2,8 mil calorias diárias para manter o peso. Eu ainda não tinha conseguido quaisquer outros suprimentos de comida, e concluí meu café da manhã quando a faxineira de meu senhorio me deu dois pequenos copinhos de café muito açucarado (75 calorias).

Da mesma forma que os cubanos aproveitam lacunas nos regulamentos para sobreviver, decidi explorar minha evidente condição de estrangeiro em meu benefício, e passei o dia entrando e saindo de hotéis nos quais poucos cubanos estão autorizados a entrar. Isso me dava acesso a ar condicionado, papel higiênico e música. Passei pela segurança no Habana Libre, o antigo Hilton, e subi de elevador até o topo, que oferecia lindas vistas de Havana ao crepúsculo.

A boate ainda não estava aberta, mas entrei mesmo assim; apanhei um ensaio em curso. Um roqueiro russo, com uma banda de apoio de mais de 30 músicos, estava passando o som do show que faria mais tarde. O hotel serviu chá e água mineral em garrafas aos músicos, e aproveitei a oportunidade para beber bastante. O sabor adstringente do chá –mediado por muito açúcar- finalmente começou a fazer sentido para mim. Era a bebida dos noviços em um mosteiro, das pessoas famintas e enregeladas. Seu objetivo é matar o apetite.

Havia restos de um lanche. Encontrei apenas um sanduíche e meio de queijo, abandonado em um guardanapo perto da seção de cordas; coloquei o guardanapo no bolso. Caminhei por uma hora, atravessando Havana para voltar ao meu quarto, passando por dezenas de lojas novas –açougues, bares, cafés, pizzarias e outros prolíficos fornecedores de alimentos vendidos apenas em moeda forte. Detive-me por longo tempo, contemplando os imensos peitos de peru expostos na vitrine de uma das lojas.

Quando enfim cheguei ao meu quarto, os sanduíches se haviam desintegrado no meu bolso, em uma massa de migalhas, manteiga e queijo sintético, mas os comi mesmo assim, devagar, prolongando a experiência. Eu sempre havia desdenhado os cubanos que se dispõem a aplaudir o regime em troca de um sanduíche, mas, já no meu segundo dia na ilha, eu me sentia disposto a denunciar Obama em troca de um biscoito.

Na manhã do terceiro dia, caminhei mais de duas horas por Havana em busca de comida, queimando 600 calorias, o equivalente aos sanduíches consumidos um dia antes. Eu havia presumido, erroneamente, que poderia simplesmente comprar a comida de que precisaria para o mês. No entanto, por ser norte-americano, eu era inelegível para o racionamento, nos termos do qual o arroz custa dois centavos de dólar o quilo. Como “cubano” vivendo com salário de US$ 15 ao mês, eu não teria como comprar comida fora do sistema, nas dispendiosas lojas que vendem alimentos em dólares. Os cubanos chamam essas pequenas lojas, que vendem de tudo, de pilhas e carne bovina a óleo de cozinha e fraldas, de “el shopping”. Depois de horas de frustração, e incapaz de comprar qualquer comida, voltei de ônibus ao apartamento.

Eu não tinha almoçado. Tentei ler, mas só havia trazido livros sobre dificuldades e sofrimento, como “Les Misérables”. Comecei com um panorama mais fácil e bem humorado sobre uma vida solitária e repleta de privações, “Sailing Alone Around the World”, de Joshua Slocum, e li 146 páginas do livro em meu primeiro dia. Slocum atravessou o Atlântico em um veleiro comendo pouco mais que biscoitos e postas de carne de peixe voador, acompanhados por café, e fiquei especialmente satisfeito quando, ao chegar ao Pacífico, ele descobriu que havia uma infestação de mariposas em sua reserva de batatas, e teve de lançar as valiosas provisões ao mar. Mas depois disso ele costumava fazer absurdos como preparar um cozido irlandês ou apelar a uma reserva de vitela defumada comprada na Tierra del Fuego. Um navio de passagem chegou a lhe lançar uma garrafa de vinho espanhol, certa vez. Bastardo sortudo.

Se eu continuasse a ler no ritmo daquele primeiro dia, livros seriam mais uma das provisões que eu esgotaria antes do prazo.

Por fim, já que não conseguia mais ficar parado, corri para fora da casa e, seguindo uma dica, encontrei uma casa a alguns quarteirões de distância em cujo portão havia um cartaz com a palavra “café”. Na parte traseira da casa havia uma janela gradeada, e eu passei o equivalente a 40 centavos de dólar pela janela. Uma mulher me serviu um pãozinho com apresuntado. Um copo de suco de papaia me custou mais 12 centavos de dólar. Embora eu tentasse comer devagar, o almoço desapareceu em questão de minutos. A esse ritmo –50 centavos de dólar por refeição-, minha reserva de dinheiro seria consumida rapidamente, e saí daquele quintal prometendo a mim mesmo que jantaria quase nada.

De manhã, notícias piores me aguardavam quando tentei me vestir. Descobri que o zíper de minha calça estava enguiçado. Como parte do meu esforço para parecer e me sentir cubano, só havia levado duas calças na bagagem. Calças são um dos muitos itens não alimentícios também distribuídos como parte da ração, e isso em geral quer dizer apenas uma calça por ano. A maioria dos cubanos se vira com apenas um ou dois exemplares de cada peça de roupa. Por isso, o zíper quebrado teria de ser reparado –em janeiro, não havia distribuição de calças. Depois do fracasso de alguns esforços nada competentes para consertar o zíper sozinho, compreendi que teria de gastar dinheiro, ou trocar alguma coisa, pelo trabalho de um alfaiate. Café da manhã: duas xícaras de café açucarado. Total de 75 calorias.

MERCADO No quarto dia, saí para comprar comida, experiência ridícula. Por sorte, o apartamento que aluguei ficava perto do maior e melhor mercado de Havana, que não é nem tão grande e nem tão bom assim. O mercado era um “agro”, ou seja, um sacolão.

Há quem compare esses mercados às feirinhas de produtos orgânicos norte-americanas, mas não havia conversa amistosa entre comprador e vendedor, e sim um ruidoso, lotado e barulhento corredor repleto de bancas vendendo todas o mesmo estreito elenco de produtos, a preços aprovados pelo Estado: abacaxis, berinjelas, cenouras, pimenta verde, tomate, cenoura, iúca, alho, bananas-da-terra e não muito mais.

Numa sala separada, havia carne de porco à venda, pilhas trêmulas de carne rosada e pálida, manipulada por homens de mãos nuas. Carne era um produto além de meu alcance, embora houvesse “gordura” à venda por US$ 1 (27 pesos) o quilo.

Esperei na fila para converter todo o meu dinheiro –18 pesos conversíveis, a moeda forte cubana– em pesos comuns. A pilha de cédulas desgastadas e sujas que resultou da transação equivalia a 400 pesos, ou cerca de US$ 16, pela cotação do mercado negro de Havana.

Enfrentei as multidões e comprei uma berinjela (10 pesos), quatro tomates (15), uma cabeça de alho (2) e algumas cenouras (13). No balcão da padaria, a mulher que atendia me disse que pães só podiam ser vendidos a portadores de cadernetas de racionamento –mas mesmo assim me vendeu cinco pãezinhos, avidamente apanhando cinco pesos de minha mão. Só fui bem tratado pelo vendedor de tomates, que me ofereceu um tomate de brinde.

DOIS PESOS Cuba tem duas moedas, o peso valioso, oficialmente conhecido como CUC, e chamado de cuc, fula, chavita e convertible; ele foi introduzido para eliminar a presença de moeda estrangeira no país e seu valor deveria equivaler ao do dólar norte-americano, em termos gerais, ao menos antes da comissão de 20% cobrada pela conversão.

A outra moeda é o humilde peso comum (conhecido como peso). Os salários dos cubanos são pagos em pesos comuns, e para comprar qualquer coisa importante eles precisam convertê-los em CUC, à taxa de 24 por um. Uma caixinha de macarrão frito no bairro chinês de Havana custava “72/2,5”,em pesos comuns e CUC, respectivamente, e o preço nos dois casos representava cerca de 15% da renda mensal média.

Comprei 1,5 quilo de arroz por pouco mais de 10 centavos de dólar, e um saco de feijão vermelho. Com isso, a conta final subiu a catastróficos US$ 2, por uma quantidade de comida que produziria apenas algumas refeições.

Alguns moleques me seguiram até a saída, murmurando “camarão, camarão, camarão”, em um esforço para me vender alguma coisa. Do lado de fora, um homem viu que eu me aproximava e subiu numa árvore, descendo com cinco limões que me ofereceu. (Não era um limoeiro, e sim o lugar em que guardava seus produtos de mercado negro.) Cheguei em casa cambaleando com o peso do arroz e dos legumes, com cara, segundo a mulher de meu senhorio, de homem divorciado a ponto de começar vida nova.

DINHEIRO As calorias acumuladas inevitavelmente me levaram a refletir sobre o outro lado da equação: dinheiro. Como eu conseguiria sobreviver dali a duas semanas, se a cada vez que fizesse compras gastasse US$ 2? Eu continuava a fazer tudo a pé, o que me custava 60 minutos apenas para chegar aos hotéis de turistas em Vedado (nos quais não encontrei mais nenhum sanduíche extraviado), ou para encostar o rosto contra as grades de ferro de algum restaurante, assistindo, em companhia de quatro ou cinco cubanos, à banda que tocava mambo para os estrangeiros.

A cada dia eu era abordado por cubanos que, de uma ou outra maneira, me pediam dinheiro. E sabia que minhas escolhas pessoais seriam igualmente desagradáveis, algumas semanas adiante. Será que eu deveria me posicionar em uma esquina e pedir dólares a desconhecidos? Até que ponto uma pessoa precisa estar faminta para se tornar parecida com a adolescente pela qual passei em uma calçada de Vedado naquela tarde; ela trazia um bebê no colo, mas se voltou para mim e disse: “Deseas una chica sucky sucky?”

CAFÉ Se era questão de chupar alguma coisa, eu já sabia exatamente o quê. Apanhei-me contemplando os Ladas que passavam, para ver se as tampas de seus tanques de gasolina tinham trancas. Com uma mangueira e um recipiente plástico, eu poderia obter cinco litros de gasolina e vendê-la por intermédio de um amigo no bairro chinês. Mas todos os carros de Cuba têm trancas nas tampas do tanque de combustível, ou ficam protegidos atrás de portões trancados, à noite. Já havia homens demais, e bem mais durões que eu, envolvidos nesse tipo de trabalho. Cuba não é terra para ladrões amadores.

Eu precisava de café, mas nenhuma loja tinha estoque desse produto essencial. Nem mesmo a loja do meu bairro que opera com moeda forte tinha café, e visitas repetidas aos supermercados que vendem em dólares, em Vedado, e às lojas de diversos hotéis resultaram em zero café, por todo o mês. Certa vez vi um pacote de meio quilo de Cubacafe, a marca de exportação, à venda em um cinema da Velha Havana. Mas custava 64 pesos, e mesmo que a abstinência de café estivesse me matando, eu não tinha como pagar tão caro, ou andar toda aquela distância de novo. Da janela do meu banheiro, percebi que a loja de produtos racionados estava aberta, e fui até lá.

Em uma prateleira, havia cinco sacos de café. Eram da marca doméstica, Hola, um café claro, em contraposição ao pó escuro do Cubacafe, e o preço era de pouco mais de um peso pelo primeiro pacote de 100 gramas, e de cinco pesos por pacote adicional. Havia cerca de uma dúzia de pessoas disputando o pão e o arroz, e por isso pude estudar as duas lousas nas quais a loja anunciava os produtos disponíveis. A maior delas mencionava os produtos básicos –os primeiros dois quilos de arroz custam 25 centavos de peso; cada comprador pode comprar um quilo adicional por 90 centavos de peso. O limite de compras era de três quilos de arroz ao mês, para prevenir que as pessoas comprassem arroz e o revendessem em busca de lucros. A lousa menor informava sobre os “produtos liberados”, e continha uma lista menor de coisas como cigarros e outros bens que podem ser adquiridos sem restrições.

Eu disse “el último”, e tomei lugar na fila por trás do comprador que antes era o último. Logo chegou uma mulher com uma sacola plástica nas mãos e disse “el último”, e se tornou a última da fila.

O homem que me atendeu sorria mas parecia agitado. Era alto, negro, e usava uma barba rala, mal cuidada. Quando pedi café, fez um gesto negativo com as mãos. Não era preciso explicar: um estrangeiro não tem direito a ração, e de qualquer jeito não havia café. Tentei ganhar tempo, esticando uma conversa à qual ele só respondia com gestos. Perguntei se não havia café em parte alguma, e disse que havia procurado por toda a cidade, sem encontrar. Acrescentei que realmente gostava de café. Sabe?

“Os cubanos bebem muito café”, ele por fim respondeu. Tendo estabelecido uma conexão, eu acenei com a cabeça e perguntei se não seria possível conseguir café em algum lugar. “Não”, ele respondeu.

Sério? Talvez alguém, em algum lugar? Nem precisa ser muito. Ele meneou a cabeça; o gesto do talvez.

Quem?

“A Sra. __“, respondeu.

E onde posso encontrá-la?

Como se estivesse guiando um cego, ele saiu de trás do balcão, me apanhou pelo braço e me conduziu até a rua. Caminhamos apenas 10 passos, sem mudar de calçada. Ele entrou na primeira porta, e distraidamente apertou o traseiro de uma mulher que estava passando. (“Ei!”, ela exclamou, furiosa. “Quem você acha que é?”) Paramos na porta de um apartamento localizado imediatamente atrás da loja de produtos racionados. Ele bateu. A porta foi aberta por uma mulher com um bebê no colo.

“Café”, ele disse.

Paguei com uma nota de 20 pesos. Ela me deu um pacote de Hola e cinco pesos de troco.

“Só isso?” Era três vezes mais que o preço cobrado na loja, a alguns passos de distância, mas descobri mais tarde que os cubanos também têm de pagar o mesmo ágio.

O homem fez que sim com a cabeça. Seu nome era Jesús.

Voltamos à loja. “Pão?”, perguntei. Ele perguntou ao seu chefe, que respondeu com um “não” em volume alto o bastante para que a loja toda ouvisse.

Perguntei de novo. Ele repetiu a pergunta ao chefe. Não ouvi um novo não. Passei-lhe a nota de cinco pesos e recebi cinco pãezinhos.

Depois disso, pude comprar tudo que queria. Em companhia de Jesús, ninguém perguntava coisa alguma. Ninguém me pediu para ver minha caderneta de racionamento, nas compras dos itens básicos, e pelo resto do mês paguei o mesmo preço que os cubanos, pela mesma merda de comida.

PEDESTRE No sexto dia, fui a pé aos subúrbios, saindo de meu bairro, Plaza, e passando por Vedado rumo ao oeste, e pelo imenso cemitério de Colón, que abriga os mausoléus e os anjos alados das famílias ricas do passado cubano, bem como os sepulcros de concreto da classe média. Um jovem chamado Andy caminhou comigo por algum tempo, entusiasmado por aprender mais sobre os Estados Unidos. (“todos queremos viver lá”); ele me convidou para conhecer a barbearia de um amigo. Mais tarde, de novo sozinho, passei por alguns cafés, e estudei com atenção todas as pequenas barracas. Uma delas oferecia “pão com hambúrguer” por 10 pesos, o menor preço que havia visto até então. Mas ainda assim seria um gasto alto demais para aquele dia.

Entrei para o mundo dos pedestres de longo percurso, e percorri uma dúzia de avenidas e mais de 20 ruas ao longo de uma hora; encontrei a pequena ponte sobre o rio Almendares que separa Havana propriamente dita da Grande Havana. Os exilados costumam falar com nostalgia sobre o Almendares, cujo percurso tortuoso é marcado por vinhas e imensas árvores, mas sempre o vi como deprimente ou até mesmo um tanto assustador: uma fronteira úmida e lodosa entre a cidade decadente e as grandes (e dispendiosas) casas dos subúrbios a oeste. De uma ponte baixa perto do oceano, consegui ver o que restava da paisagem marinha: uma dúzia de cascos de navios naufragados, alguns barcos dilapidados usados como moradia, e galpões abandonados que no passado serviam como abrigos de embarcações. Só havia dois barcos em movimento: uma lancha da polícia e um pequeno iate sem mastros de cerca de seis metros de comprimento, aparentemente incapaz de chegar à Flórida.

Virei à direita na Miramar, passando por algumas das maiores mansões de Cuba e diversas embaixadas. É a região “dos endinheirados, das empresas estrangeiras e das pessoas com linhagem”, diz uma prostituta no romance “Havana Babylon”. “Viver em Miramar, mesmo que em um vaso sanitário, é sinal de distinção”.

COMIDA ROUBADA Fui perseguido por duas mulheres que acenavam com uma lata imensa de molho de tomate e gritavam “15 pesos! É para os nossos filhos!” Não parei, mas depois percebi que havia cometido um erro. Ao preço de 15 pesos por uma lata em tamanho restaurante, o molho de tomate seria uma pechincha. Comida roubada é a mais barata. E nada poderia ser mais normal em Cuba do que caminhar carregando uma lata gigante de alguma coisa.

Poucos quarteirões adiante, cheguei por acaso ao Museu do Ministério do Interior. A equipe era formada por mulheres com o uniforme do Minint, com ombreiras verdes e saias na altura do joelho. Informaram-me que o ingresso custava dois CUC. Eu não tinha como pagar, é claro. E quanto custa o ingresso para os cubanos? Pergunta errada. Ninguém pechincha com o Minint.

Eu disse que voltaria outro dia, mas fiz hora no saguão de entrada, que serve como local para exposição: uma bancada de metralhadoras, fotos da grande sede do Minint, perto do meu apartamento, e citações em letras grandes de frases de Raúl Castro e outras autoridades, com elogios aos patriotas do Minint por protegerem o país.

Uma das mulheres, que usava o cabelo preso em um coque severo, estava me observando. Embora eu não tivesse fotografado nada e nem tomado notas, ela parecia astuta.

“Quem é você?”, ela perguntou.

Eu sorri e comecei a caminhar para a saída.

“Você é jornalista?”, ela quis saber.

“Turista”, disse, olhando por sobre os ombros e caminhando apressado para a saída.

“Você tem credencial para vir aqui?”, ela me perguntou, de longe.

Continuei a caminhar rumo oeste, por mais meia hora. Estava coberto em suor quando cheguei à casa de Elizardo Sánchez, um dos alvos do Minint.

PROGRESSO Quando contei a Sánchez que havia caminhado até sua casa, como parte de um plano para passar 30 dias vivendo e comendo como um cubano, ele me mostrou sua caderneta.

“O nome disso é caderneta de suprimentos”, disse ele, “mas é um sistema de racionamento, o mais duradouro do mundo. Os soviéticos não tiveram racionamento por tanto tempo quanto os cubanos. Nem mesmo o racionamento chinês durou tanto.” A escassez surgiu logo depois da revolução; o sistema para a distribuição controlada de bens básicos já estava em funcionamento em 1962.

Depois de 50 anos de Progresso, o país está falido, na prática. Em 2009, ervilhas e batatas foram retiradas da ração e os almoços baratos nos locais de trabalho foram reduzidos às dimensões de lanches rápidos.

“Havia rumores sobre retirar coisas da ração, ou eliminar o sistema de vez”, disse Sánchez, sobre boatos que cativam os cubanos. Mas esses rumores desapareceram em 1º de janeiro de 2010, quando novas libretas foram distribuídas, a exemplo de todos os outros anos.

ARTES DOMÉSTICAS Sánchez mantém alegre ignorância quanto às artes domésticas. “Dois quilos de arroz a 25 centavos”, ele disse, tentando recordar sua ração mensal. “Acho. E mais meio quilo a 90 centavos. Acho. Vamos perguntar às mulheres. Quanto a isso, elas dominam”.

Ele chamou a mulher com quem vive, Barbara. Além de trabalhar como advogada em defesa de prisioneiros políticos, ela cozinha e ajuda sua mãe e uma sócia a manter uma padaria na cozinha de sua casa. Elas compraram uma saca de trigo “à esquerda”, o que significa que se trata de farinha roubada, comprada de um contato. O custo foi de 30 pesos. Com isso e uma porção de carne moída comprada clandestinamente no açougue, elas fazem pequenas empanadas vendidas a três pesos a unidade, ou cerca de oito por US$ 1. É assim que Cuba se ajeita: as lojas de produtos racionados têm moradores dos bairros como funcionários; eles roubam ingredientes e os vendem aos vizinhos, que produzem alguma coisa com eles e revendem a esses e outros vizinhos. Oito empanadas seriam um bom almoço, mas US$ 1 era preço fora do meu orçamento. Barbara me deu duas delas, e eu as demoli com uma mordida.

Ela ouviu com expressão neutra, quando expliquei minha tentativa de viver dentro dos limites do racionamento. “É um bom plano de dieta”, comentou. Outro dissidente que estava visitando a casa, Richard Rosello, entrou na conversa. Ele tem um caderno no qual anota os preços dos produtos nos mercados paralelos, também conhecidos como mercados clandestinos ou mercados mala preta. “Um problema é a comida”, disse Rosello. “Mas também temos o problema de como pagar a conta de luz, o gás, o aluguel. O preço da eletricidade está de quatro a sete vezes mais alto que no passado”. Elizardo paga cerca de 150 pesos por mês de eletricidade –um quarto do salário médio cubano.

Como sobreviver, portanto? “Os cubanos inventam alguma coisa”, disse Barbara. Um dos truques é vender os bens racionados, comprados a baixo preço, pelo valor de mercado. Foi assim que enfim consegui comprar minha porção de 10 ovos. Sem a caderneta de racionamento, não tinha como comprá-los legalmente. Mas ao anoitecer do dia anterior, eu havia esperado perto da loja de ovos local, onde troquei um olhar com uma mulher idosa que estava saindo com 30 ovos –um mês de suprimento para três pessoas. Ela os comprou a 1,5 peso por unidade, e me vendeu 10 deles por dois pesos cada. Voltou à loja e imediatamente comprou mais ovos, lucrando três ovos e alguma sobra de dinheiro com a transação. Os dois caminhamos de volta para nossas casas cuidadosamente, com medo de desperdiçar toda a ração mensal de proteína por conta de um único tropeço.

Barbara aproveitou para apontar um erro terrível em meu plano. Nos últimos anos, a maioria das fontes fora de Cuba reporta que a ração inclui 2,5 quilos de feijão preto. Mas há anos isso não é verdade. A porção do mês era de apenas 200 gramas.

Dez mil calorias haviam desaparecido do meu mês em um piscar de olhos.

Para atenuar o golpe, Barbara decidiu me convidar para um “típico” almoço cubano. O primeiro prato é arroz –a dois ou 2,5 quilos por mês, esse grão é o alimento básico da dieta cubana. A porção diária de arroz reservada a cada cidadão poderia ser guardada em uma lata de leite condensado. Trata-se de arroz vietnamita de baixa qualidade, conhecido como “creole”, “feio” ou “microjet”, este último termo uma referência zombeteira a um dos planos de Fidel para irrigar safras agrícolas por meio de um sistema de aspersão por gotas. O almoço típico inclui meia lata de arroz (a outra metade fica para o jantar); era uma massa grudenta, mas minha fome ajudou a considerá-lo saboroso.

Depois, uma terrina de sopa de feijão. Cada terrina continha apenas alguns feijões, mas o caldo era rico, reforçado com ossos de boi. (“20 pesos o quilo, para os ossos”, disse Barbara. “Muita gente não tem como comprá-los”.)

Eu não comia carne bovina havia seis dias.

Depois, ela me deu meia batata doce. “Muito melhor que a batata comum, em termos de nutrição!”, disse Elizardo, de algum lugar do corredor.
Também me serviram um ovo frito, ainda que Elizardo tenha apontado, em novo grito, que “se você comer um ovo hoje, não poderá comer amanhã”. Ou depois de amanhã.

O ovo caiu muito bem. Dadas as dimensões reduzidas do meu estômago, a refeição toda, incluindo as duas pequenas empanadas, pareceu perfeitamente adequada. Mastiguei os ossos, extraindo pequenos pedaços de carne. Era minha melhor refeição em alguns dias. Barbara guardou cuidadosamente o óleo da frigideira. Richard, com seu caderninho de preços, expôs a matemática dessa forma de alimentação.

Uma “cesta mensal” de comida racionada (que dura apenas 12 dias) custa 12 pesos por pessoa, de acordo com as contas do governo. Nos 10 dias seguintes de cada mês, as pessoas precisam comprar o mesmo volume de comida por 220 pesos, nos diversos mercados livres, paralelos e negros. E ainda assim isso só conduz o cidadão ao 22º dia do mês. As despesas mensais envolvidas em manter o mesmo padrão de alimentação seriam de 450 pesos –o que supera a renda de milhões de cubanos, e isso sem incluir roupas, transportes ou produtos para a casa.

Ninguém mais consegue comprar pratos e xícaras. Eles são roubados de empresas estatais, quando possível, e vendidos no mercado negro. Quanto a roupas, é preciso comprá-las usadas, em mercados de troca conhecidos como troppings, um trocadilho com o apelido das lojas que vendem em moeda forte. Pessoas cuja comida acaba vasculham latas de lixo ou se tornam alcoólatras para atenuar a dor, disse Richard.

Elizardo voltou à sala. “Não estamos falando do Haiti, ou do Sudão”, disse. “As pessoas não caem nas ruas, mortas devido à fome. Por quê? Porque o governo garante dois ou 2,5 quilos de açúcar, que tem alto teor calórico, e uma porção diária de pão, e arroz suficiente. O problema em Cuba não é a comida ou as roupas. É a completa falta de liberdade cívica, e portanto de liberdade econômica, o que é exatamente o motivo para que exista a libreta, para começar”.

Como no resto do mundo, o problema da comida na verdade é um problema de acesso, de dinheiro. E o problema de dinheiro é um problema político.

No sétimo dia, eu repousei. Deitado na cama com Victor Hugo, perdido na contemplação daquele teste da bondade humana, era fácil esquecer por uma hora que minhas gengivas doíam, que minha garganta estava repleta de saliva.

Havana está mudando, como as cidades costumam. A região central foi colocada sob o controle de Eusebio Leal Spengler, o historiador da cidade. Leal recebeu prioridade especial para materiais de construção, mão de obra, caminhões, ferramentas, combustível, encanamentos e até mesmo torneiras e vasos sanitários. Mas não é por isso que as pessoas o amam. Em lugar disso, explicou meu amigo, o acesso “privilegiado” a suprimentos significa simplesmente que há mais para roubar.

Uma amiga estava reformando a casa na esperança de alugar aposentos para estrangeiros, e passados alguns minutos ouvimos um caminhão freando na rua, e o estrondo de uma grande buzina. O marido dela me fez um sinal apressado, e abrimos juntos a porta da frente. Havia um caminhão parado à porta. Em 60 segundos, três pessoas, entre as quais eu, descarregaram 250 quilos de sacos de cimento Portland. O marido passou algum dinheiro ao motorista, notas amarfanhadas, e o caminhão partiu imediatamente.

O caminhoneiro havia faturado com material de construção destinado a alguma obra. Passamos meia hora transferindo o cimento a um canto escuro de um quarto dos fundos, recobrindo os sacos com uma lona, porque as letras da embalagem eram impressas em azul, o que configura propriedade do Estado. Os sacos com letras verdes são destinados à construção de escolas. Os sacos reservados ao uso dos cidadãos comuns vêm impressos em vermelho, e custam US$ 6 a unidade, nas lojas do Estado.

Ao contrário da maioria dos funcionários cubanos, Leal de fato fez diferença na vida dos cidadãos. Reconstruiu os velhos hotéis; meus amigos roubaram 250 quilos de cimento para construir seu novo bangalô para turistas. Restaurou um museu, e meus amigos roubaram telhas de zinco para os telhados. Enviou caminhões carregados de madeira ao bairro, e metade da carga desapareceu.

Tudo é propriedade do Estado. As pessoas se apoderam de tudo. Um sistema de racionamento operando em modo reverso.

Ajudar no roubo do cimento foi meu primeiro grande sucesso. Por meia hora de trabalho, recebi um prato imenso de arroz com feijão vermelho, acompanhado por uma banana e uma porção de picadillo –pelo menos 800 calorias.

SEGUNDA SEMANA A segunda semana foi mais fácil. As duas pequenas prateleiras do apartamento estavam bem abastecidas de arroz e feijão, algumas batatas doces compradas por 1,70 peso o quilo, e minha garrafa de uísque contrabandeado, ainda pela metade. Eu tinha nove ovos, depois oito, e depois sete, ainda que a geladeira fora isso estivesse vazia.

Deixei de lado luxos como os sanduíches (ou sanduíche –comprei só um, e a despesa ainda me causava pesadelos). No décimo dia, constatei que me restavam 100 pesos. Como no caso dos ovos, eu era capaz de imaginar uma lenta e cuidadosa redução ao longo dos próximos 20 dias, mas tanto meu orçamento quanto minha dieta podiam ser arruinados caso eu tropeçasse e deixasse uma gema cair no chão.

Tudo dependia de quanto o arroz duraria. Já que só me restavam cinco pesos por dia para gastar, eu não poderia mais fazer compras grandes durante a minha estadia. Aprendi a controlar o apetite e a passar sem me deter pelas filas de cubanos que adquirem pequenas bolas de farinha frita a um peso. Meu único luxo foi uma barra de manteiga de amendoim endurecida, produzida artesanalmente por agricultores, que comprei por cinco pesos em um agro.

Com cuidado, essa barra de tamanho equivalente a seis colherinhas de amendoim moído rusticamente e pesadamente açucarado podia durar até dois dias. É normal ver os campesinos mais pobres mascando essas barras, que eles embrulham cuidadosamente e guardam depois de cada mordida.

TRABALHO Outra coisa que eu tinha em comum com a maioria dos cubanos é que absolutamente não trabalhei durante meus 30 dias. O que significa que trabalhei muito e com grande frequência em meus projetos pessoais.

Carreguei cimento e removi cascalho por dinheiro, e escrevi bastante, mas não se tratava de trabalho para o Estado, o tipo de trabalho computado nas contas da Cuba oficial, onde mais de 90% das pessoas são funcionários do Estado.

Por que procurar emprego? Ninguém leva seu trabalho a sério, e a piada mais velha de Havana continua a ser a melhor: “Eles fingem que nos pagam, nós fingimos que trabalhamos”.

Os cubanos que ignoram convocações oficiais ao trabalho podem ser acusados de serem “elementos perigosos”, um delito vago e passível de pena de até quatro anos de prisão. Ser um elemento perigoso é um “pré-crime”, disse Elizardo Sánchez –como se a polícia tentasse cortar pela raiz as atitudes negativas antes que a pessoa tenha a oportunidade de cometer um crime real.

Há campanhas regulares para deter os jovens que tentem evitar o trabalho estatal e o serviço militar, e este ano elas se provaram especialmente vigorosas, um sinal de nervosismo. “Não é fácil se esconder do governo”, disse Sánchez. “Os meninos precisam se registrar para futuro serviço militar aos 15 anos de idade. Às vezes tentam mudar de endereço, mas não funciona. Para um jovem, é difícil permanecer escondido. Cuba é uma sociedade de arquivos. Da primeira série em diante, a polícia para crianças nas ruas e lhes solicita documentos de identidade. Podem fazer contato pelo rádio e pegar a ficha completa”.

CARAMELO Com isso, eu tinha tempo de sobra. Naquela noite, ouvi música ao longe e encontrei uma série de palcos montados ao longo da rua 23, e assisti a um bom show de rock sob a luz da lua. Sentei-me no pedestal de alguma obscuridade heróica –uma mãe estendo os braços para entregar o filho à batalha. Depois de algum tempo, uma menininha de sete ou oito anos se aproximou e sentou perto de mim.

“Caramelo?”, disse. (Doce?)

“Não tenho”.

“Nenhum?”

“Nada”.

“Mas nenhum, mesmo?”

“Não”.

Então vieram as perguntas usuais: de onde você vem, onde mora, por que está por aqui. E de novo: “Não tem dinheiro nenhum?”

“Não tenho”.

“Mas os estrangeiros sempre têm muito dinheiro”.

“Sim, tenho dinheiro no meu pais. Aqui, vivo como se fosse cubano”.
“Me dá um peso?”

Não posso. A verdade, pequena, é que estou no meio de um jogo. Estou fingindo ser pobre. Estou vivendo como seus pais, por algum tempo. Não como há nove horas. Nos 11 últimos dias, comi 12 mil calorias a menos do que minha dieta normal disporia. Meu dentes doem muito.

Ou, traduzido para o espanhol: “Não”.

MIL CALORIAS Por fim, voltei para casa, onde uma celebração muito desejada me aguardava. Era sexta-feira, a noite da semana em que eu comeria carne. Ainda que o dia até aquele momento tivesse sido um de meus piores –apenas mil calorias até as 21h, e longas caminhadas-, estava determinado a compensar tudo aquilo com um banquete. Preparei arroz, e cozinhei uma batata doce na panela de pressão –que os cubanos apelidam de “aquela que Fidel nos deu”, porque foram as panelas distribuídas como parte de um esquema de economia de energia. Também tomei uma preciosa dose de uísque com gelo (250 calorias), tudo isso acompanhado por arroz e feijão que sobraram do dia anterior. Por necessidade, servi apenas porções pequenas.

Do refrigerador, tirei minha proteína: um dos quatro filés de frango empanados a que tinha direito para o mês. Acendi o fogão com cuidado, e fritei o filé até que sua crosta ficasse escura, ainda que ao servi-lo o interior estivesse frio e úmido. Não era carne de frango. Não era nem mesmo a “mistura de frango” que a embalagem dizia ser. Os principais ingredientes mencionados eram pasta de soja e trigo. Uma inspeção mais cuidadosa revelou que o teor de carne de frango era zero. Eu estava comendo uma esponja empanada, com apenas 180 calorias. Ah, meu reino por um McNugget.

Por fim, cruzei a barreira das duas mil calorias pela primeira vez em 10 dias –por pouco. Descontando os muitos quilômetros de caminhadas e alguns minutos de dança, retornei à familiar referência das 1,7 mil calorias. Mas pelo menos estava de barriga cheia quando fui dormir.

Ou era o que eu imaginava. Depois de duas horas de sono, acordei com insônia, a companheira da fome. Fiquei na cama da uma da manhã até o alvorecer, cinco horas de briga contra mosquitos e de leitura de Victor Hugo e Alexandre Dumas père.

Ainda assim, não é possível comparar minha situação a uma fome real. Como aponta Hugo: “Por trás da arte de viver com muito pouco, está a arte de viver com nada”. Mergulhei nos milhares de páginas da França do século 19, em dois escritores que descrevem revoluções, marchas forçadas e fome real. “Quando a pessoa não comeu”, escreve Hugo, “a sensação é muito estranha… Ela rumina aquela coisa inexprimível, a amargura. Uma coisa horrível, que envolve dias sem pão e noites sem sono”. E assim chegou a aurora, minha 12ª.

TELEFONEMA Repentinamente, sorte e felicidade. Na noite seguinte, eu estava sentado à porta do meu edifício, observando a rua, quando meu vizinho se aproximou vindo do beco, trazendo um telefone. Um telefonema. Para mim.

Era a amiga de um amigo, em visita a Cuba com seu namorado. Os dois eram claramente norte-americanos, do tipo “que bom que nós existimos”, e eu imediatamente farejei a possibilidade de uma refeição grátis. O casal havia chegado a Havana e, porque não conheciam a cidade e nem falavam espanhol, me convidaram para jantar.

Saímos a passeio pelas ruas de Vedado, e eu evitei cuidadosamente pedir comida, tentando parecer estóico. Jantamos em um restaurante para turistas, e pela primeira vez desde minha chegada comi carne de porco.

Na tarde seguinte, voltamos a nos encontrar. Eu os levei a uma cerimônia de iniciação na Santería, uma hora de tambores e calor sufocante em um pequeno apartamento, durante a qual pelo menos três pessoas foram possuídas por espíritos. Depois, recebi novo convite para jantar em um restaurante elegante.

Mais carne de porco!

Os cubanos preparam lechón, um inocente leitãozinho, marinado em um molho de alho e laranjas azedas, e cozinham o prato por muitas horas; a carne fica macia a ponto de poder ser comida com a colher. Para acompanhar a reluzente proteína e gordura, serviram-nos arroz com feijão, exatamente aquilo que eu comia duas vezes por dia em meu apartamento. A porção servida equivalia a quatro refeições para mim, expliquei.
“Desculpe”, disse o namorado enquanto se servia, “mas vou comer sua quinta-feira”.

Como as centenas de cubanos a quem servi de anfitrião ao longo dos anos, tive de trabalhar pela minha comida. Falei sobre a história dos cultos afrocubanos. Sobre a história de edifícios que nunca visto. Sobre a ilha vista pelos olhos de Capone, Lansky, Churchill e Hemingway. Fiz piadas sobre o socialismo. Discorri sobre a arte do racionamento. O segredo do daiquiri. Nas duas noites, comi carne de porco, acompanhada por arroz e feijão e um par de coquetéis.

A despeito da carne, não registrei grande avanço nas calorias consumidas –apenas 2,1 mil ao dia, ante minhas 1,7 mil usuais. Mas as refeições ajudaram meu bem estar psicológico. Eu havia conseguido uma folga, como que um feriado, depois da ansiedade causada pela redução de meu estoque de alimentos básicos.

LIXO Na manhã seguinte, encontrei uma mulher vasculhando meu lixo. Ela estava em busca de garrafas de vidro ou qualquer outra coisa de valor. Dei-lhe minhas calças de zíper enguiçado. Ela tinha 84 anos, a idade de minha mãe, e vivia com uma aposentadoria de 212 pesos ao mês, ou pouco mais de US$ 8. Vasculhava latas de lixo em busca de produtos aproveitáveis –para fúria de minha faxineira, que considerava ter direito ao conteúdo das latas- e trabalhava como colera, ou profissional de espera em filas, para cinco famílias moradoras do quarteirão.

Ela levava suas cadernetas de racionamento à bodega, retirava e entregava os mantimentos a elas, e por esse trabalho recebia cerca de 133 pesos. Estava usando uma bombinha de asma que custava 20 pesos, ou cerca de 75 centavos de dólar, mas apenas a primeira dose era comprada a esse preço; se a pessoa precisasse de mais de uma ao mês, teria de recorrer ao mercado negro, pagando alguns dólares por unidade.

Para agradecer pelas minhas calças, ela informou que a padaria “livre” tinha estoque. Estava falando da padaria não racionada, onde qualquer pessoa está autorizada a comprar pão. O preço é quatro vezes mais alto que o das padarias racionadas, mas há muito mais pão. Apanhei uma sacola plástica e caminhei oito quarteirões (passando por três padarias racionadas que estavam fechadas) para comprar um pão inteiro por 10 pesos.

No meu caminho de volta, uma mulher que ia na direção oposta perguntou: “A padaria tem pão?”, e acelerou o passo, diante da resposta.

Depois, quando passei por dois homens que jogavam xadrez sob uma figueira, um deles fez a mesma pergunta.

“Sim, há pão”, respondi.

Os dois guardaram as peças, enrolaram o tabuleiro e se foram na direção da padaria.
Meu café da manhã havia sido uma pequena e dura banana da terra, comprada de um homem em um beco. Com café e açúcar, ela representava menos de 200 calorias. O almoço consistiu de um ovo acompanhado por duas fatias do pão que eu tinha comprado, ou seja, mais 380 calorias.

Eu tinha US$ 3 na carteira, e mais 17 dias para sobreviver.

Um erro catastrófico. Andei a tarde toda, e o teor de açúcar no meu sangue estava baixo. Quando passei por um beco curto no qual havia um cartaz com a palavra “pizza”, parei e pedi uma. A pizza básica –um disco de 15 centímetros de massa tenuamente recoberto de ketchup e um pouquinho de queijo- custa 10 pesos, mas cedi a um impulso e pedi uma especial, com chorizo. Assim, meu lanche custaria 15 pesos.

No meu apartamento, coloquei a pizza na mesa e a contemplei, horrorizado. Os 15 pesos equivaliam a horríveis US$ 0,60, e estourariam meu orçamento. Pelo mesmo montante, eu poderia ter comprado quilos de arroz.

Contemplando a minúscula pizza, menor que uma fatia de pizza norte-americana, comecei a tremer e tive de me sentar. De repente, comecei a chorar. Por bons 10 minutos, solucei e me amaldiçoei. Imbecil! Tolo! Idiota!

TENSÃO Eu havia gasto um quinto do dinheiro que me restava por impulso, e agora só tinha 64 pesos para viver pelos próximos 17 dias. O que me aconteceria? O que eu comeria quando meus feijões, cujo estoque já estava baixo, acabassem? E se eu cometesse outro erro? E se fosse roubado? Como chegaria ao aeroporto no último dia se não tivesse nem mesmo alguns centavos para pagar o ônibus?

Chorar libera não só tensão e medo como endorfinas. A pizza e eu esfriamos juntos. Comi com cuidado, usando garfo e faca, e bebendo água gelada. A “refeição” durou menos de dois minutos. Foi o ponto mais baixo do meu mês.

Algum tempo depois, bateram à minha porta. A filha de um dos vizinhos estava do lado de fora. “Patri!”, ela gritou. “Patri!”

Abri a porta e ela me entregou uma caixa de sapatos. Era pesada, e estava envolta em fita adesiva. Um visitante havia passado por lá –outro norte-americano que estava em visita a Cuba-, e quando a abri encontrei um bilhete da minha mulher e do meu filho pequeno, e três dúzias de biscoitos de chá feitos em casa.

Comi 10 deles. Da emboscada à fuga. Das lágrimas à paz. Da danação à alegria. Racionei o restante dos biscoitos: cinco ao dia até que o estoque se reduzisse, e depois dois ao dia; por fim, desmontei a caixa com uma faca e comi as migalhas que encontrei nos cantos.

ESPELHO Uma vez por dia, eu cedia à vaidade e me olhava no espelho sem camisa, vendo um homem que não contemplava há 15 anos. Eu havia perdido primeiro dois, depois três, por fim quatro quilos. Mas estômago e mente se ajustaram com facilidade assustadora.

Minha primeira semana havia sido dolorosa e acompanhada por uma fome mortal. A segunda, dolorosa e apenas moderadamente faminta. Agora, na terceira, ainda que estivesse comendo menos que nunca, me sentia tranquilo, tanto física quanto mentalmente.
O dia havia sido o pior da viagem até aquele momento, com apenas 1,2 mil calorias consumidas, o equivalente ao que os prisioneiros norte-americanos recebiam dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.
Voltei à casa dos meus amigos ladrões de cimento e, depois de uma longa espera, a mulher me cozinhou um jantar generoso, rolando de rir da minha “experiência”. Ela fritou (em óleo roubado de uma escola) uma porção de carne de frango moída (comprada de um amigo que a roubara), e serviu com arroz “feio” da ração e uma pequena beterraba. Depois da refeição, ela até me fez gemada, mas em porção cubana –um golinho, em uma xícara pequena de café. Também comi algumas colheradas de papaia (um peso a porção, em um mercado barato que ela recomendou), cozido com xarope de açúcar.

“É impossível”, ela disse, sobre minha tentativa de ser oficialmente cubano. Para sobreviver, todo mundo precisa de “algo extra”, alguma renda excluída do sistema. O marido dela alugava um quarto para um turista sexual norueguês. A vizinha vendia almoços a trabalhadores de uma empresa cujo refeitório fora fechado recentemente. A mãe dela caminhava pelas ruas com uma garrafa térmica e xícara, vendendo cafezinhos. Uma vizinha na rua ao lado roubava óleo de cozinha e revendia por 20 pesos a garrafa de meio litro. Outra vizinha roubava carne de frango e a vendia por 33 pesos o quilo. (“Boa qualidade, preço muito bom, você devia comprar”, ela aconselhou.)

A refeição que ela serviu foi a única que comi naquela dia, e as calorias consumidas foram compensadas por uma espantosa caminhada não através de Havana mas em torno da cidade, um circuito extenso pelas ruas carcomidas, passando por grandes hotéis, casas encardidas, pessoas dormindo sem teto e sentadas em caixotes, sem descanso, as horas da manhã, tarde e noitinha girando, pelas largas avenidas e becos estreitos, passando por Plaza, Vedado, Centro, Velha Havana e chegando a Cerro antes de voltar a Plaza de novo, três, seis, 10, 13 quilômetros, passando pela estação rodoviária, estádio de futebol, os sapatos furados de tanto andar, até que voltei para dormir.

Meus pés estavam doloridos. Mas meu estômago não tinha queixas.

Eu costumava dizer que, em Cuba, 10% de tudo era roubado, para revenda ou reaproveitamento. Agora creio que a proporção real seja de 50%. O crime é o sistema.
Na calçada diante da minha loja de produtos racionados, um dia, vi um adolescente com cabelo cortado em estilo punk, sentado em seu reluzente Mitsubishi Lancer, de motor ligado, e brincando com o que achei ser um iPhone. “Não é um iPhone”, ele me corrigiu. “É um iPod Touch”.

O aparelho é vendido por US$ 200, ou 5,3 mil pesos. Algumas pessoas têm dinheiro, mesmo aqui. A única certeza é a de que não ganham esse dinheiro de nenhuma maneira legítima.

Caminhei até o amplo hotel Riviera, cujo salão de jogos de azar foi fechado devido à nacionalização apenas um ano depois de inaugurado. (O proprietário, Meyer Lanski, disse, famosamente, que “tive azar nos dados”.) Pesei-me na balança da academia de ginástica: 90 quilos. Em 18 dias, eu havia perdido quase cinco quilos, um ritmo de redução de peso que teria resultado em hospitalização nos Estados Unidos.

A caminho de casa, uma mulher perguntou onde passava o ônibus P2. Atrapalhei-me para responder. “Ah, achei que você fosse cubano”, ela disse. Mude de peso, mude de nacionalidade. Ri de seu engano e continuei andando, mas não demorou um minuto para que ela me seguisse.

“Ei, me leve para almoçar”, ela disse. “Onde você quiser”. Fiz que não com a cabeça. “Almoço”, ela disse, enquanto eu me afastava. “Jantar. Como preferir”.

Em casa, abri a geladeira e contei os cinco ovos que me restavam.

Como a mulher em busca do P2, eu havia me tornado direto. Caminhei três quilômetros até Cerro, um bairro perigoso. Passei por um beco no qual restos enferrujados de caminhões repousavam, por um estádio esportivo derruído, por um parque de vegetação descuidada, por um bosque, e cheguei à porta de entrada do Ministério do Interior. É o famoso edifício com uma estátua gigante de Che Guevara. Dois soldados de boinas vermelhas estavam de guarda.

O edifício do Minint costuma ser fotografado o tempo todo, devido à escultura de Che que o tornou famoso, mas ninguém quer entrar. Ignorei os guardas e continuei caminhando pelo asfalto rachado da imensa Plaza da Revolución. Do lado oposto, caminhando com cuidado, passei pela entrada de um edifício baixo mas colossal, posicionado ao final de uma larga esplanada. Era o Conselho de Estado, o núcleo do sistema revolucionário; nele, Raúl Castro comanda o trabalho dos principais funcionários cubanos. Soldados das forças especiais armados de pistolas e cassetetes protegem a entrada; o governo se sente seguro a ponto de ter apenas um par de pistolas me separando de Raúl.

Caminhando a esmo, e ocasionalmente em círculos, passei por Cerro e outros bairros até encontrar a casa de Oswaldo Payá, um dos mais importantes dissidentes de Cuba. Falamos de política, cultura, neoliberalismo e direitos humanos, mas o que me chamou a atenção foi sua situação econômica pessoal. “Meu salário é de 495 pesos por mês”, disse. “Isso equivale a cerca de 10 refeições para quatro ou cinco pessoas. Os salários não cobrem um quinto de nossas necessidades alimentícias.

Um sanduíche de 10 pesos e um refrigerante de um peso consomem metade do meu salário diário. Se somarmos a despesa de ir ao trabalho e voltar para casa, e os meus três filhos que estão na escola, precisamos de 10 a 12 pesos por dia para transporte –ou seja, 50% a 60% da renda familiar total”. Ele sobrevive graças a um irmão que vive na Espanha e envia dinheiro.

“O paradoxo é que os trabalhadores são as pessoas mais pobres de Cuba. Vivemos todos pior que o sujeito que vende cachorro quente no posto de gasolina da esquina” (uma empresa autorizada a vender em moeda forte). A maioria das pessoas não tem CUC, e voltam para casa famintas a cada noite.

“Não digo que tudo em Cuba seja ruim, ou terrível. Temos esquemas de distribuição para alimentar os pobres, para conceder benefícios. Mas essa é outra forma de dominação, mantendo as pessoas pobres para sempre. Se minhas mãos estivessem livres, eu abriria um negócio e me sustentaria sozinho”.

Perguntei-lhe onde alguém poderia conseguir dinheiro para um iPod Touch ou qualquer das outras engenhocas, produtos de luxo, carros moderno, aparelhos de som e roupas elegantes que são cada vez mais comuns em Cuba. “Viver de salário equivale a ser pobre”, disse. “Todos precisam roubar o sistema para sobreviver. É a corrupção tolerada da sobrevivência”. Uma minúscula classe média emergiu: “Empresários, quase todos antigos funcionários do governo, pessoas que operam restaurantes. São todos ligados ao regime.

A maioria ex-militares ou funcionários do Ministério do Exterior, e assim por diante. Pessoas bem conectadas. Estão dentro do sistema. São intocáveis”. E existe um terceiro grupo, incrivelmente pequeno e “indescritivelmente” próspero, dentro da liderança, “com casas grandes, viagens ao exterior, tudo. O povo cubano sabe que esse grupo existe, mas ninguém jamais os vê, não há como”.

Ao longo de uma hora de conversa, sua mulher, Ofelia, empregada doméstica e também ativista dos direitos humanos, me serviu um copo de suco de abacaxi. Quando o assunto estava se esgotando, Oswaldo insistiu que eu voltasse para uma refeição e um mojito, “quando quiser”.

Não saí da cadeira. A conversa sobre futuras refeições me deixou com água na boca. Ofelia percebeu, e logo ouvi o ruído de fritura na cozinha. Comemos sopa de tomate, arroz e lentilhas amarelas. Ela serviu uma porção de proteína, uma mistura cinzenta que pensei ser picadillo do governo porque tinha gosto de soja e restos de alguma coisa que um dia tivesse sido um animal.

Mas Ofelia tirou a embalagem da cesta de lixo. Era carne de peru “separada mecanicamente” produzida pela Cargill, dos Estados Unidos, parte das centenas de milhões de dólares em produtos agrícolas vendidos a Cuba a cada ano sob uma cláusula de isenção do embargo. Era quase intragável, mesmo com a fome que eu sentia, mas Ofelia tinha um sorriso largo nos lábios. “Muito melhor que o peru que comprávamos antes”, disse.

Quando eu estava saindo, Oswaldo tentou me dar 10 pesos. “Qualquer cubano faria isso por você”, disse. Ele me aconselhou a gastar o dinheiro em comida, mas recusei, devolvendo as notas. Não podia aceitar dinheiro de uma fonte, ainda que meus escrúpulos não se estendessem a recusar uma refeição. Ele insistiu. No final, para evitar a caminhada de volta à minha casa, aceitei uma moeda de um peso para o ônibus.

Oswaldo caminhou comigo pelas ruas de seu bairro perigoso, repletas de adolescentes que nos encaravam, e me levou ao ponto de ônibus.

“Use calças compridas”, foi seu conselho final. Só turistas circulam de shorts.

BEBIDA Fazia tempo que meu uísque havia acabado, e era difícil apreciar Cuba sem beber. Oswaldo Payá reforçou essa sensação ao dizer que “uma boa bebida é um dos direitos que todos temos”. Era hora de fazer algo para beber.

O único alimento que eu tinha de sobra era açúcar –eu nem me dera ao trabalho de comprar minha cota de açúcar bruto, porque em três semanas havia consumido menos da metade de meus 2,5 quilos de açúcar refinado.

Fazer rum é um processo simples, ao menos em teoria. Açúcar mais fermento resultam em álcool. Destilar o produto resulta em álcool ainda mais forte. Eu jamais havia destilado álcool, mas tinha visitado a destilaria Bushmills, na Irlanda do Norte, pouco antes da viagem a Cuba e, reforçado com anotações baseadas no livro “Chasing the White Dog”, de Max Watman, decidi que procuraria a felicidade alcoólica, mesmo que aos tropeços.

O primeiro passo é produzir um mosto, ou solução de baixo teor alcoólico. Eu já tinha o açúcar. Fui a uma padaria livre, onde uma multidão de consumidores desapontados esperava que as máquinas produzissem uma nova fornada de pães. Na porta dos fundos, chamei uma padeira com um gesto e perguntei se podia comprar fermento.

“Não”, ela disse. “Não temos o suficiente nem para nós”. Seguindo o ritual ao qual já me acostumara, continuei a conversa, tentando conquistar sua atenção, e não demorou para que ela esticasse o braço pela cerca e me desse meio saco de fermento –fabricado na Inglaterra. Tentei pagar, mas ela recusou.

Depois de submeter a prosa de Watman a engenharia reversa com a ajuda de uma calculadora, só me restava esperar que minhas contas estivessem mais ou menos certas. Um quilo de açúcar requereria cerca de quatro litros de água. Bem ao estilo de Havana, a água provou ser o maior obstáculo: a água encanada da cidade vem repleta de magnésio. Meu senhorio tinha um filtro de água coreana, mas estava quebrado.

 

Quem quiser a continuação pede que eu envio…

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“A hipocrisia é…

“A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.” (François de La Rochefoucauld)

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