A desigualdade de riquezas e de renda

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“O que mais se critica em nossa ordem social é a desigualdade da distribuição da riqueza e da renda.  Há ricos e pobres; há os muito ricos e os muito pobres.  A solução não está longe: a igual distribuição de toda riqueza.

A primeira objeção a esta proposta é que ela não servirá muito à situação, porque os de poucas posses superam, em muito, o número dos ricos, de tal modo que cada indivíduo nada poderia esperar dessa distribuição, a não ser um aumento insignificante de seu padrão de vida.  Este argumento, sem dúvida, é correto, mas incompleto.  Os que defendem a igualdade de distribuição de renda desconsideram o ponto mais importante, a saber, que o total disponível para a distribuição, o produto anual do trabalho social, não é independente do modo pelo qual é dividido.  O fato de que esse produto alcança seu nível atual não é um fenômeno natural ou tecnológico, independente de todas as condições sociais, mas é, em sua totalidade, o resultado de nossas instituições sociais.  Simplesmente pelo fato de a desigualdade da riqueza ser possível em nossa ordem social, simplesmente pelo fato de estimular a que todos produzam o máximo que possam, é que a humanidade hoje conta com toda a riqueza anual de que dispõe para consumo.  Fosse tal incentivo destruído, a produtividade seria de tal forma reduzida, que a porção dada a cada indivíduo, por uma distribuição igual, seria bem menor do que aquilo que hoje recebe mesmo o mais pobre.

A desigualdade da distribuição da renda, contudo, tem ainda uma segunda função tão importante quanto a primeira: torna possível o luxo dos ricos.

Muitas bobagens se têm dito e escrito sobre o luxo.  Contra o consumo dos bens de luxo tem sido posta a objeção de que é injusto que alguns gozem da enorme abundância, enquanto outros estão na penúria.  Este argumento parece ter algum mérito.  Mas apenas aparenta tê-lo.  Pois, se demonstrarmos que o consumo de bens de luxo executa uma função útil no sistema de cooperação social, este argumento será, então, invalidado.  É isto, portanto, o que procuraremos demonstrar. Nossa defesa do consumo de luxo não é, naturalmente, feita com o argumento que se ouve algumas vezes, isto é, que esse tipo de consumo distribui dinheiro entre as pessoas.  Se os ricos não se permitissem usufruir do luxo, assim se diz, o pobre não teria renda.  Isto é, simplesmente, uma bobagem, pois se não houvesse o consumo de bens de luxo, o capital e o trabalho neles empregados teriam sido aplicados à produção de outros bens: artigos de consumo de massa, artigos necessários, e não “supérfluos”.

Para formar um conceito correto do significado social do consumo de luxo, é necessário, acima de tudo, compreender que o conceito de luxo é inteiramente relativo.  Luxo consiste num modo de vida de alguém que se coloca em total contraste com o da grande massa de seus contemporâneos.  O conceito de luxo é, por conseguinte, essencialmente histórico.  Muitas das coisas que nos parecem constituir necessidades hoje em dia foram, alguma vez, consideradas coisas de luxo.  Quando, na Idade Média, uma senhora da aristocracia bizantina, casada com um doge veneziano, fazia uso de objeto de ouro, que poderia ser chamado de precursor do garfo, como hoje o conhecemos, ao invés de utilizar seus próprios dedos para alimentar-se, os venezianos o considerariam um luxo ímpio, e considerariam muito justo se essa senhora fosse acometida de uma terrível doença.  Isto devia ser, assim supunham, uma punição bem merecida, vinda de Deus, por esta extravagância antinatural.  Há duas ou três gerações se considerava um luxo ter um banheiro dentro de casa, mesmo na Inglaterra.  Hoje, a casa de todo trabalhador inglês, do melhor tipo, contém um.  Há trinta e cinco anos, não havia automóveis; há vinte anos, a posse de um desses veículos era sinal de um modo de vida particularmente luxuoso.  Hoje, nos Estados Unidos, até um operário possui o seu Ford.  Este é o curso da história econômica.  O luxo de hoje é a necessidade de amanhã.  Cada avanço, primeiro, surge como um luxo de poucos ricos, para, daí a pouco, tornar-se uma necessidade por todos julgada indispensável.  O consumo de luxo dá à indústria o estímulo para descobrir e introduzir novas coisas.  É um dos fatores dinâmicos da nossa economia.  A ele devemos as progressivas inovações, por meio das quais o padrão de vida de todos os estratos da população se têm elevado gradativamente.

A maioria de nós não tem qualquer simpatia pelo rico ocioso, que passa sua vida gozando os prazeres, sem ter trabalho algum.  Mas até este cumpre uma função na vida do organismo social.  Dá um exemplo de luxo que faz despertar, na multidão, a consciência de novas necessidades, e dá à industria um incentivo para satisfazê-las.  Havia um tempo em que somente os ricos podiam se dar ao luxo de visitar países estrangeiros.  Schiller nunca viu as montanhas suíças que tornou célebres em Guilherme Tell, embora fizessem fronteira com sua terra natal, situada na Suábia.  [1] Goethe não conheceu Paris, nem Viena, nem Londres.  No entanto, hoje, milhares de pessoas viajam por toda parte e, em breve, milhões farão o mesmo.

[1] Um antigo ducado no Sudoeste da Alemanha.  Hoje em dia um distrito do Sudoeste da Baviera.  (N. do T.)

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