ROMANTISMO PARA IDIOTAS

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Texto do Luiz Felipe Pondé no Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, link no final do artigo.

 

O movimento romântico europeu, cujo epicentro se deu entre o final do século 18 e o final do século 19, está intimamente ligado ao tema do “outro”, mas o ultrapassa em densidade e importância filosófica.

Essa relação se dá por conta do medo que o romântico tinha do futuro do mundo e da sociedade do dinheiro, e por isso muita gente sonhava que os índios, que vivem na Idade da Pedra, seriam melhores do que nós, ocidentais (porque não viviam na ganância em que nós vivemos). Quando você começa a pensar que tribos que não conheciam a roda até ontem, como alguns índios brasileiros e alguns povos africanos, podem ser nossa esperança, poderá acordar sendo um romântico idiota.

Mas o que o politicamente correto tem a ver com esse romântico idiota? Vejamos.

O filme Avatar de alguns anos atrás é um exemplo ideal para entendermos o que é um romantismo para idiotas. No filme, a humanidade interesseira está destruindo uma civilização de índios azuis, os Naavis, que vivem num planeta cujo solo tem riquezas minerais. Ao final, alguns humanos unidos aos índios azuis salvam a “deusa natureza” do planeta, expulsam os malvados humanos (representantes da usura moderna) e voltam a viver em contato com a natureza.

Cenas como as que mostram conversas com árvores, bestas-feras que se unem aos bons índios azuis contra os capitalistas malvados ou os índios azuis de mãos dadas cantando sons mágicos ao redor de árvores emocionaram milhares de idiotas pelo mundo. Todo mundo sabe que quase ninguém está disposto a viver como os índios, mas é comum gente boba achá-los “superavançados” com suas técnicas médicas do Neolítico. Abraçar árvores não resolve nada, muito menos supor que poderíamos voltar a viver em sociedades pré-escrita ou pré-roda. A menos que mais da metade da população mundial morresse, esses delírios não servem para nada.

Daí que o justo medo da modernidade e do mundo do dinheiro pode fazer de você um retardado, como todo medo faz: corremos o risco de ficar em pânico e infantilizados. Mas o que caracteriza o retardamento mental abençoado pelo politicamente correto é crer que voltarmos ao Neolítico nos salvaria das contradições do desenvolvimento da técnica, fruto de nossos próprios esforços para superar nossos sofrimentos. Para a praga PC (politicamente correta), dizer que índios são populações próximas ao Neolítico é um pecado capital, ainda que a maioria desses crentes apenas finja amor por eles.

A relação entre o politicamente correto e a natureza é revelado neste filme Avatar para além apenas do tema do “outro perfeito”. A relação é revelada também na sua face religiosa neopagã.

A ideia de que a natureza seja perfeita é religiosa e primitiva. Nossos ancestrais facilmente cultuavam a natureza porque ela os fazia sentir pequenos, dependentes e protegidos e/ou destruídos por ela. Qualquer relação adulta com a natureza implica saber que ela gera e destrói, e, nesse sentido, nossos ancestrais eram mais adultos do que os retardados contemporâneos, pois cultuavam a natureza não porque viam nela uma pureza santinha, mas porque enxergavam o poder dos deuses ancestrais: beleza e crueldade. Os idiotas românticos de hoje em dia esquecem que câncer é tão natural quanto os passarinhos e pensam que a natureza seja apenas os passarinhos.

Esse tipo de comportamento avança sobre crenças ligadas à saúde e à nutrição, fazendo com que um dia, quem sabe, seja politicamente incorreto comermos animais. Isso não está distante da posição de filósofos como Peter Singer e sua crítica ao especismo, termo cunhado para revelar nossos “preconceitos” contra os animais (assim como contra os negros), porque não os reconhecemos como “pessoas com direitos”. Talvez este seja um dos tipos do politicamente correto mais “de ponta”: comer animal será um dia proibido por lei se depender desses seguidores de Peter Singer. Claro que não devemos maltratar seres por simples gosto (a menos que você seja menino, more no mato e não tenha muito o que fazer…), mas, se fôssemos como esses caras do “animal liberation”, não teríamos sobrevivido à seleção natural. E mais: a ciência muito avança graças a testes com animais. Será que esses caras estão dispostos a morrer de câncer mesmo que tenham a possibilidade de usar novas drogas? Dirão que sim, mas são mentirosos.

O que se revela aqui é o eterno caráter retardado mental (quando não mau caráter apenas) que o politicamente correto aplica a este tema da natureza e dos animais: a crueldade é parte dos esquemas de sobrevivência dos seres vivos, e não adianta projetarmos uma visão de pureza moral de nós mesmos, porque o mundo pararia de existir. O que suspeito fortemente é de que esses caras apenas desejam passar a imagem de bonzinhos porque não gostam de comer carne. Salta aos olhos que muita gente se faz de bonzinho em cima do discurso politicamente correto tipo “save the whales”. Parece-me difícil sobreviver se quisermos salvar tudo o que vive sobre o planeta. E o que mais espanta é que justamente a tal da natureza é a primeira a ser cruel, e eles parecem que não veem. Basta ver o canal Discovery para perceber que não existe a natureza politicamente correta, ela é o oposto dessa praga.

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O Comerciante

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“Do mesmo modo que sustento minha vida não por meio do roubo nem de esmolas, e sim por meu próprio esforço, também não tento buscar minha felicidade na desgraça dos outros nem em favores que os outros me concedam, porém a ela faço jus por minhas realizações.
Do mesmo modo que não considero o prazer dos outros o objetivo da minha vida, também não considero o meu prazer o objetivo da vida dos outros. Assim como não há contradições nos meus valores nem conflitos nos meus desejos, ,também não há vítimas nem conflitos de interesse entre homens racionais, que não desejam o imerecido nem se encaram uns aos outros com uma volúpia de canibal, homens que nem fazem sacrifícios nem os aceitam.O símbolo de todos os relacionamentos entre tais homens, o símbolo moral do respeito pelos seres humanos, é o comerciante. Nós, que vivemos dos valores e não do saque, somos comerciantes, tanto na matéria quanto no espírito. O comerciante é o homem que faz jus àquilo que recebe e não dá nem toma para si o que é imerecido. O comerciante não pede que lhe paguem por seus fracassos, nem que o amem por seus defeitos. Ele não desperdiça seu corpo como sacrifício, nem sua alma como esmola. Do mesmo modo que ele só dá seu trabalho em troca de valores materiais, ele também só dá seu espírito – seu amor, sua amizade, sua estima – em pagamento e em troca de virtudes humanas, em pagamento de seu próprio prazer egoísta, que recebe de homens merecedores de seu respeito. Os parasitas místicos que, em todas as eras, insultaram o comerciante e o desprezaram, ao mesmo tempo que honraram os mendigos e os saqueadores, sempre souberam o motivo secreto de sua zombaria: o comerciante é a entidade que eles temem – o homem justo.”

Ayn Rand in A Revolta de Atlas
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“Se espantou co…

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“Se espantou com a surpresa
de que é a vida,
mais que a morte,
que não tem limites.”
– Gabriel García Márquez –

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Por que nos tornamos tão ricos? Aparentemente, ninguém sabe por Gary North

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“Os homens têm de acreditar que aquilo que eles fazem como indivíduos irá fazer alguma diferença no futuro.  Eles têm de acreditar que deixarão algum legado.  Eles têm de acreditar em alguma forma de crescimento a taxas compostas.  Se eles não acreditarem nisso, então o incentivo para se construir um futuro melhor é mínimo.  A filosofia passa a ser: coma, beba e seja feliz, pois amanhã estaremos mortos.  Isso sempre leva à estagnação.”

No final de março, darei uma palestra no Mises Institute a respeito deste tópico: “Por que somos tão ricos?”  Considero esta a mais importante pergunta histórica que pode, de maneira concebível, ser respondida por meio de um apelo a evidências que sejam aceitáveis para historiadores.O mundo no qual vivemos hoje é irreconhecível quando comparado ao mundo de 1800.  Praticamente nada permaneceu igual.  Esta evolução foi resultado de uma taxa de crescimento contínua de 2,5% ao ano, de 1800 a 1930, e de 2% ao ano desde 1950.  Isso mostra o que pode ser alcançado quando, para utilizar uma linguagem matemática, atingimos uma “taxa de capitalização composta” de crescimento.  Ninguém sabe ao certo como foi que conseguimos chegar a um arranjo que permite essa taxa de capitalização composta de crescimento.  Exatamente por isso esta é uma pergunta tão crucial.Uma resposta que já foi aventada, mas que ainda não foi comprovada, é a da professora Deirdre McCloskey, que sugeriu que houve uma mudança na atitude das pessoas em relação ao empreendedorismo e ao sucesso empresarial na Holanda do século XVII.  O argumento soa plausível, mas enquanto o terceiro volume do livro da Dra. McCloskey sobre a cultura burguesa não for publicado (ver o primeiro e o segundo), este argumento será meramente uma sugestão.

Ao longo de toda a história humana, de tempos em tempos, um grupo que até então não usufruía nenhuma vantagem específica sobre nenhum outro grupo repentinamente dá um salto para a frente e passa a se sobressair em relação a todos os demais.  Ninguém sabe por que isso acontece ou como isso acontece.  Mas o fato é que acontece.

Peguemos o exemplo da Holanda.  Era um país minúsculo que foi totalmente criado pela engenharia.  Por se situarem abaixo do nível do mar, os holandeses criaram diques para barrar o Mar do Norte e manter suas terras secas.  O país literalmente cresceu à custa do oceano.  Não conheço nenhum outro país que tenha feito isso em toda a história humana.  Em 1568, os protestantes se revoltaram contra o controle espanhol do país.  Este conflito, a Guerra dos Oitenta Anos, durou mais de uma geração.  Os líderes desta revolta eram majoritariamente calvinistas.  O calvinismo se difundiu pela cultura holandesa no início do século XVII.  Esta foi a grande mudança cultural que ocorreu durante todo este período.  De acordo com McCloskey, houve uma mudança de atitude em relação ao empreendedorismo e à riqueza em geral.

Ao mesmo tempo, houve uma quase-revolução na pintura.  Os pintores holandeses se tornaram famosos por toda a Europa.  E então houve uma expansão do império marítimo holandês.  Os holandeses se espalharam por todo o globo.  Eles estabeleceram um enorme enclave na América do Norte, na região em que hoje está a cidade de Nova York.  Naquela época, a cidade era chamada de Nova Amsterdã.  O império holandês se espalhou também para a costa oeste da Índia e depois para a Indonésia.  Os britânicos e os holandeses travaram uma guerra em meados do século XVII, quando ambas as nações eram lideradas por calvinistas.  Foi uma guerra para delimitar impérios.

No final do século XVII, a Escócia era conhecida apenas pelos rigores de seu clima, por sua paisagem e por sua teologia calvinista.  A produção de algodão vinha ocorrendo há séculos, mas a Escócia continuava sendo um país atrasado.  E então, sem nenhum aviso, os escoceses começaram a dominar o pensamento europeu.  Adam Smith chegou atrasado nesse processo.  Antes dele houve Francis Hutcheson.  Houve Lord Kames na área do direito.  Houve o poderoso intelecto de David Hume.  Houve Adam Ferguson na teoria social.  O pensamento social nas ilhas britânicas e na América do Norte passou ter uma orientação crescentemente escocesa.

E então, no século XIX, os escoceses começaram a dominar a indústria.  Começou com James Watt e sua máquina a vapor.  Isso foi expandido, nos anos 1820, para uma nova invenção: as ferrovias com locomotivas a vapor.  E então vieram as estradas macadamizadas, assim chamadas em homenagem ao engenheiro escocês John Loudon McAdam.  Depois surgiram as ceifadeiras, criadas por Cyrus McCormick, e as siderúrgicas, criadas por Andrew Carnegie.  Ambos eram escoceses que viviam nos EUA.  Há um excelente livro sobre este processo, escrito por Arthur Herman:How the Scots Invented the Modern World: The True Story of How Western Europe’s Poorest Nation Created Our World & Everything in It.

Mais tarde, no início do século XX, os escoceses foram substituídos pelos judeus.  Estamos vivendo, como disse um livro recente, no século dos judeus.  Nas áreas da ciência, da matemática, da teoria econômica, do entretenimento, do investimento e aparentemente de tudo o mais, exceto na agricultura, os judeus se tornaram dominantes.  Sua influência é totalmente desproporcional à sua quantidade.

O problema é que parece não haver nenhuma explicação consistente para essas idas e vindas das pessoas.  No caso dos holandeses e dos escoceses, havia de início uma forte dedicação ao calvinismo, mas isso só foi gerar efeitos econômicos muito tempo depois.  No caso da Escócia, foram escoceses secularizados que fizeram as grandes contribuições, e não os calvinistas.  Um fenômeno similar ocorreu entre os judeus.  O processo de liberalização do judaísmo ocorreu no início do século XIX.  Os judeus que fizeram grandes contribuições foram judeus seculares.  Calvinistas ortodoxos e judeus ortodoxos parecem não possuir nenhuma vantagem específica sobre as outras culturas.  Até hoje não encontrei nenhuma explicação para esta sequência: ortodoxia, secularização, sucesso.  Mas ela claramente existe, e existe fortemente entre os holandeses, os escoceses, e os judeus.

De certa forma, a Coréia do Sul é outro exemplo.  O presbiterianismo tem sido muito forte na Coréia do Sul, tendo começado no início do século XX.  Tal religião tem sido uma influência por lá, mas é difícil saber qual exatamente tem sido essa influência.  Em 1950, a Coréia do Sul era uma nação extremamente pobre, quase tão pobre quanto uma colônia na África subsaariana.  Hoje, a Coréia do Sul é uma das nações mais ricas do mundo.  Similarmente, a China também passou por esse tipo de transformação.  Mao primeiro transformou os chineses em comunistas ortodoxos, e então tentou reestruturar toda a ordem social em termos do marxismo-leninismo.  No entanto, quando Deng Xiaoping liberalizou a agricultura, em 1978, isso gerou uma completa transformação da economia chinesa.  A China se tornou o país continental com o mais acelerado e duradouro crescimento da história do homem.  Ela era miserável sob a velha ideologia; quando a ideologia foi removida, a taxa de crescimento disparou.

Estes são apenas palpites daquilo que creio ser uma teoria de causalidade econômica.  Creio que tem algo a ver com a autodisciplina e com uma orientação mais voltada para o longo prazo, características associadas a uma ideologia revolucionária.  O calvinismo era uma ideologia assim.  O comunismo também era uma ideologia assim.  Ambas alteraram a visão das pessoas em relação a Deus, ao homem, às leis, às causalidades, e ao futuro.  Foi assim com o calvinismo; foi assim com o comunismo.  E então, quando a ideologia foi abandonada, a visão de mundo continuou a influenciar o comportamento das pessoas.  A doutrina a respeito de Deus muda, mas a doutrina a respeito do homem ser um desbravador e a doutrina da orientação para o longo prazo permaneceram praticamente a mesma todo esse tempo.  O otimismo associado ao triunfo do reino na história, seja o reino de Deus ou o reino do homem, era assumido pela geração que se seguia ao colapso da ideologia mais velha.  O otimismo era conservado e o comprometimento para com a construção do reino era mantido, mas o objetivo final foi alterado: em vez de paraíso na terra, crescimento incessante a taxas compostas.  Tal tipo de crescimento cria aquilo que teria sido considerado pelos fundadores das velhas ideologias como sendo o paraíso econômico na terra.

Os homens têm de acreditar que aquilo que eles fazem como indivíduos irá fazer alguma diferença no futuro.  Eles têm de acreditar que deixarão algum legado.  Eles têm de acreditar em alguma forma de crescimento a taxas compostas.  Se eles não acreditarem nisso, então o incentivo para se construir um futuro melhor é mínimo.  A filosofia passa a ser: coma, beba e seja feliz, pois amanhã estaremos mortos.  Isso sempre leva à estagnação.

Se o Ocidente conseguirá manter seu alto crescimento econômico em face dos desafios impostos pela Ásia é uma das principais perguntas da atualidade.  Na Europa Ocidental, parece ter havido uma perda de esperança no futuro.  Esse pessimismo ainda não se difundiu pelos EUA, algo que permite ao país manter uma tremenda vantagem.  Mas o otimismo é óbvio na China.  Isso tem produzido níveis de comprometimento e entrega nunca antes vistos na história chinesa.  Os cidadãos de lá realmente acreditam que podem enriquecer, e então passam a trabalhar visando a este fim.  Isso gera um extraordinário incentivo para a poupança, para o empreendedorismo, para o trabalho duro, e para o desenvolvimento de novos produtos.  A visão de mundo dos cidadãos chineses mais jovens não é a mesma da de seus pais quando estes tinham a mesma idade.  Isso fez uma enorme diferença na China.

Não estou convencido de que o sistema educacional do Ocidente ainda mantém aquele velho otimismo que era tão comum décadas atrás.  Creio que aquele otimismo está desaparecendo.  Isso terá repercussões de longo prazo, majoritariamente negativas, na ordem social ocidental.  Ainda há muito otimismo remanescente, mas ele tem de ser alimentado pela geração mais velha, de modo que a geração mais nova se sinta estimulada e impelida a se comprometer e a se entregar.

Se essa mentalidade definhar, o século do Ocidente irá finalmente chegar ao fim.

Gary North , ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história. Visite seuwebsite.
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A Razão

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“A única afirmação que pode ser feita sobre a razão é que ela é o marco que separa os homens dos animais e a ela devemos todas as realizações que consideramos especificamente humanas.

Para aqueles que pensam que o homem seria mais feliz se renunciasse ao uso da razão e tentasse deixar-se conduzir somente pela intuição e pelos instintos, não há melhor resposta do que recordar as conquistas da sociedade humana. A Economia, ao descrever a origem e o funcionamento da cooperação social, fornece todas as informações necessárias a uma escolha entre a racionalidade e a 
irracionalidade.

Se o homem cogitasse de se libertar da supremacia da razão, deveria procurar saber ao que, forçosamente, estaria renunciando.

Mises, em Ação Humana, pg. 89

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‘Vale Cultura’, ‘Bolsa família’ e a ausência de um padrão moral na política brasileira.

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Não é seu para dar

Um dia na Câmara dos Representantes um projeto de lei para destinar verbas para a viúva de um ilustre oficial da marinha estava em votação.  Discursos muito bonitos foram feitos em favor do projeto.  O presidente da câmara já estava prestes a aprovar a lei quando Crockett tomou a palavra:

Senhor presidente – Eu tenho profundo respeito pela memória do falecido, tanto quanto me solidarizo com o sofrimento dos que ficam, do mesmo modo que todos os homens nesta casa, mas não podemos permitir que nosso respeito pelo finado, ou nossa compaixão pelos vivos, nos leve à praticar uma injustiça.  Não vou aqui argumentar que o Congresso não tem a autoridade para destinar estes recursos para caridade.  Todos os membros aqui presentes sabem muito bem disso.   Nós temos sim o direito, como indivíduos, de fazer caridade o quanto quisermos com nosso próprio dinheiro; mas, como membros do Congresso, não temos o direito de destinar um só dólar do dinheiro público para este propósito.  Apelos eloquentes foram feitos dizendo que se trata de um débito para com o falecido.  Senhor presidente, o falecido viveu por muito tempo após o término da guerra; ele estava na ativa até o dia de sua morte, e eu não tenho conhecimento de que o governo tenha atrasado algum pagamento dele.

Todos aqui presentes sabem que não se trata de um débito.  Não podemos, sem nos corrompermos horrivelmente, destinar este dinheiro para o pagamento de um débito.  Não temos o pretexto da autoridade de destiná-lo à caridade.  Senhor presidente, eu disse que temos o direito de fazer caridade o quanto quisermos com nosso próprio dinheiro.  Eu sou a pessoa mais pobre nesta casa.  Não posso aprovar esta lei, mas darei uma semana de meu salário para a beneficiária, e se todos os membros do Congresso fizerem o mesmo, o valor conseguido será maior do que o que o projeto de lei propõe.

Ele voltou para seu assento.  Ninguém contestou o que ele disse.  A lei foi colocada em votação, e, ao invés de ser aprovada com unanimidade — como se supõe que geralmente fosse, e como, sem dúvida ela seria —, por causa deste discurso ela recebeu poucos votos, e, logicamente, foi reprovada.

Mais tarde, quando um amigo perguntou por que ele se opôs a essa destinação dos recursos, Crockett deu a seguinte explicação:

Uma noite, há muitos anos, eu estava nos degraus do Capitólio com outros membros do Congresso, quando uma forte luz sobre Georgetown chamou nossa atenção.  Evidentemente se tratava de um grande incêndio.  Montamos em cavalos e seguimos para lá o mais rápido que pudemos.  Ainda tinha muito a se fazer, mas muitas casas já haviam queimado e muitas famílias estavam sem teto, e, além disso, algumas delas não tinham nada além da roupa do corpo.  Estava muito frio, e quando vi tantas mulheres e crianças sofrendo, senti que alguma coisa deveria ser feita.  Na manhã seguinte, um projeto de lei foi apresentado para destinar $20.000 para o auxílio das vítimas.  Colocamos de lado todas as outras tarefas e nos apressamos para aprovar esta lei o mais rápido possível.

No verão seguinte, quando chegou a hora de começar a pensar nas eleições, resolvi que iria sondar como estava o eleitorado do meu distrito.  Eu não tinha nenhuma oposição ali, mas, como não tínhamos eleições há algum tempo, não sabia o que poderia acontecer.  Um dia, quando estava cavalgando em uma parte do meu distrito onde eu não era muito conhecido, vi um homem arando um campo e vindo em direção à estrada.  Puxei as rédeas e diminui o galope, de maneira que nos encontrássemos quando ele chegasse na cerca.  Quando ele chegou, eu falei com ele.  Ele respondeu educadamente, porém, como já imaginava, ele foi um tanto frio. 

Eu disse: “Olá amigo, eu sou um daqueles desafortunados candidatos, e…”

“Sim, eu sei quem você é; você é o coronel Crockett.  Já vi você uma vez, e votei em você na ultima vez que foi eleito.  Pelo visto você está em campanha agora, então acho melhor você não perder o seu tempo e nem o meu, eu não votarei em você novamente.”

Fiquei surpreso e desolado… Implorei que ele me dissesse qual era o problema.

“Bem, coronel, dificilmente valerá a pena perder tempo discutindo isso.  Não sei como isto pode ser remediado, mas no inverno passado você votou pela aprovação de uma lei que mostrou que você não tem capacidade para entender a Constituição, ou que honestamente pretenda ser consistentemente pautado por ela.  Seja o que for, você não serve para me representar.  Peço desculpas pela sinceridade.  Eu não quero me aproveitar do privilégio que o eleitor tem de dizer claramente o que pensa à um candidato para insultá-lo ou ofendê-lo.  Quero apenas expressar que o seu entendimento da Constituição é bem diferente do meu; e por eu ser uma pessoa simples, vou lhe dizer algo que não deveria, mas acredito que você seja um homem honesto… Mas não posso relevar um entendimento da Constituição diferente do meu, porque a Constituição, para ter algum valor, deve ser considerada sagrada, e ser rigidamente seguida em todas as suas cláusulas.  O homem que exerce poder e não entende isso é mais perigoso ainda se for honesto.”

“Eu concordo com tudo o que você disse, mas deve haver algum engano, pois eu não me recordo de ter votado sobre nenhuma questão constitucional no inverno passado.”

“Não coronel, não tem engano nenhum.  Embora eu viva na roça e quase nunca saia daqui, eu recebo os documentos de Washington e leio atentamente os procedimentos do Congresso.  Os documentos disseram que, no verão passado, você votou pela aprovação de uma lei que destinou $20.000 a vítimas de um incêndio em Georgetown.  Não é verdade?”

“Bem amigo; eu devo admitir.  Você me pegou.  Mas com certeza ninguém irá achar ruim que um país tão grande e rico como o nosso dê a quantia insignificante de $20.000 para aliviar o sofrimento de mulheres e crianças, ainda mais com um Tesouro cheio e superabundante, e tenho certeza que se você estivesse em meu lugar, teria feito a mesma coisa que eu.”

“Não é questão de quantia, coronel; o problema é o princípio.  Em primeiro lugar, o governo deveria ter no Tesouro não mais do que o necessário para seus propósitos legítimos.  Mas isto não vem ao caso.  O poder de coletar e gastar dinheiro à vontade é o poder mais perigoso que pode ser confiado a um homem, particularmente em nosso sistema de coletar receita através de tarifas, que sobrecaem sobre todas as pessoas de nosso país, não importando o quão pobre elas sejam.  E quanto mais pobre elas são, mais elas pagam proporcionalmente ao que possuem.  O que é pior é que isso recai sobre ela sem que saiba, pois não existe uma só pessoa no país que possa imaginar o quanto paga ao governo.  Então, observe que enquanto você contribui para aliviar alguém, você está tirando de milhares que estão em situação ainda pior que a dele.  Se você tem o direito de dar qualquer coisa, a quantia é somente uma questão de critério seu, e você teria o direito de dar tanto $20.000.000 quanto $20.000.  Se você tem o direito de dar para um, você tem o direito de dar para todos; e, como a Constituição jamais define caridade e nem estipula quantias, você tem a liberdade de dar qualquer coisa para qualquer pessoa que considere, ou finja considerar, que seja uma caridade, e qualquer quantia que considerar apropriada.  Como você pode facilmente perceber, isto abre uma porta gigantesca para, por um lado, a fraude, a corrupção e o favoritismo, e, pelo outro lado, para roubar o povo.  Não coronel, o Congresso não tem o direito de fazer caridade.  Membros individuais podem dar o quanto quiserem de seu próprio dinheiro, mas eles não têm o direito de encostar em um só dólar dos recursos públicos para este propósito.  Se o dobro de casas tivessem sido destruídas em um incêndio neste condado, nem você e nem qualquer outro membro do Congresso teriam pensando em destinar um único dólar para seus alívios.  O Congresso tem cerca de 240 membros.  Se eles tivessem demonstrado sua compaixão às vítimas contribuindo com uma semana de seus salários, teriam conseguido mais de $13.000.  Existem muitos homens ricos nos arredores de Washington que poderiam ter dado $20.000, sem que isso os privasse de uma vida luxuosa.  Os congressistas escolheram ficar com seu próprio dinheiro, o qual, se o que dizem é verdade, alguns deles não o gastaram de maneira muito louvável; e o povo de Washington, sem dúvida, aplaudiu vocês por terem-nos livrado da necessidade de dar, ao dar o que não era de vocês.  O povo delegou ao Congresso, através da Constituição, o poder de fazer certas coisas.  Ele está autorizado a coletar e destinar recursos para fazer estas coisas, e nada mais.  Qualquer coisa além destas é usurpação, e uma violação da Constituição.

Então, coronel, você violou a Constituição naquilo que considero o ponto vital.  Isto é um precedente repleto de perigos ao país, pois assim que o Congresso começa a esticar seu poder para além dos limites da Constituição, não existem limites para este poder, e nenhuma segurança para o povo.  Não tenho dúvidas de que você agiu com honestidade, mas isso não melhora nem um pouco o seu ato, exceto quando consideramos apenas seu lado pessoal, e você vê que não posso votar em você.”

Confesso que fiquei perplexo.  Percebi que se eu tivesse algum rival, e este homem fosse dar seu relato, ele convenceria outros, e eu não teria a menor chance naquele distrito.  Eu não tinha como dar uma resposta a ele, e a verdade é que eu estava tão convencido de que ele estava com a razão que eu nem queria.  Mas eu devia uma satisfação a ele e disse:

“Bem, meu amigo, você acertou em cheio quando disse que eu não tinha bom senso o suficiente para entender a Constituição.  Eu tinha a intenção de me pautar por ela, e pensei que a tinha estudado completamente.  Já ouvi muitos discursos no Congresso sobre os poderes do Congresso, mas o que você disse do seu arado tem mais consistência e faz mais sentido do que todos os pomposos discursos que já ouvi.  Se eu tivesse visto por este lado, teria me contestado antes de ter dado aquele voto; e se você me perdoar e votar em mim novamente, se eu voltar a dar um voto para alguma lei inconstitucional, eu gostaria de levar um tiro.”

Ele respondeu rindo; “Sim, coronel, você já prometeu isso antes, mas vou confiar em você novamente com uma condição.  Você disse que está convencido de que votou errado.  Você saber disso fará mais bem do que derrotar você por causa disso.  Se, enquanto estiver visitando o distrito, contar as pessoas sobre seu voto, e disser que você está convencido que ele foi um erro, eu não só irei votar em você, como farei o possível para dirimir a oposição, e, talvez, eu possa exercer alguma influência neste sentido.”

Eu disse: “Se eu não fizer isso, gostaria de levar um tiro; e para convencê-lo que estou sendo sincero, voltarei para cá dentro de uma semana ou dez dias, e se você reunir um grupo de pessoas, farei um discurso.  Organize um churrasco que pagarei por tudo.”

“Não, coronel, esta região não é de pessoas ricas, mas temos o bastante para contribuir para um churrasco, e para pagar por aqueles que não possuem.  As colheitas irão se encerrar em alguns dias, e podemos ter um dia de churrasco.  Hoje é quinta-feira; vou organizar tudo para o sábado.  Venha à minha casa sexta-feira e iremos juntos, e prometo que você terá uma plateia respeitável e atenta.”

“Muito bem, eu estarei aqui.  Apenas mais uma coisa antes de me despedir.  Preciso saber seu nome.”

“Meu nome é Bunce”

“Não é Horatio Bunce?”

“Sim.”

“Bem senhor Bunce, eu não o conhecia pessoalmente, embora você tenha dito que já me vira antes, mas eu o conheço muito bem.  Estou feliz por tê-lo encontrado, e muito orgulhoso de que talvez possa tê-lo como amigo.”

Foi muita sorte eu tê-lo conhecido.  Ele era pouco conhecido pelo público, mas era muito famoso pela sua inteligência extraordinária e sua integridade incorruptível, e por seu coração transbordando de bondade e benevolência, que são mostrados não só através de suas palavras como também de suas atitudes.  Ele era o oráculo de toda a região, e sua fama alcançou muito além do círculo de amigos próximos.  Embora eu nunca o tivesse visto, eu já tinha ouvido falar muito dele, e se não fosse este encontro, muito provavelmente eu teria enfrentado uma forte oposição, e teria sido derrotado.  Uma coisa é certa, nenhum homem poderia permanecer representando aquele distrito com aquele voto.

Cheguei a sua casa na hora marcada, depois de ter contado nossa conversa para todo grupo que encontrei e para todo homem com que passei a noite, e descobri que despertei nas pessoas um interesse e uma confiança em mim muito mais fortes do que já havia conseguido antes.

Embora estivesse muito cansado quando cheguei a sua casa, e, em circunstâncias normais, teria ido dormir bem mais cedo, eu o mantive acordado até meia-noite, conversando sobre os princípios e os assuntos do governo, e obtive dele um conhecimento mais verdadeiro do que aquele que eu havia obtido durante toda minha vida até então.

Conheci muito sobre ele desde então, já que tenho muito respeito por ele.  Não, esta não é a palavra.  Tenho muita admiração e amor por ele, e vou visitá-lo duas ou três vezes todos os anos; e lhe digo uma coisa senhor, se todos aqueles que se dizem cristãos vivessem e agissem como ele, a religião de Cristo já teria dominado todo o mundo.

Mas voltando à minha historia.  Na manhã seguinte fomos ao churrasco, e, para minha surpresa, me deparei com quase mil pessoas lá.  Conheci muitos que eu nunca havia visto antes, e fui sendo apresentado a todos até que me tornei bem conhecido.

Na hora certa elas foram avisadas de que eu faria um discurso.  Elas se reuniram ao redor de uma plataforma que havia sido construída.  Eu abri meu discurso dizendo:

“Concidadãos – Me apresento a vocês hoje me sentindo um novo homem.  Recentemente meus olhos foram abertos à verdades que a ignorância ou o preconceito, ou ambos, até então haviam obscurecido para mim.  Acredito que hoje eu possa oferecer a vocês um serviço muito mais valoroso do que jamais fui capaz de oferecer.  Estou aqui mais para admitir o meu erro do que para buscar votos.  Devo esta confissão a mim mesmo e a vocês.  Se vocês votarão em mim ou não é uma coisa que só diz respeito a vocês.”

Prossegui contando a elas sobre o incêndio e meu voto pela destinação da verba e então contei a eles porque estava convencido de que o que fiz foi errado.  Eu concluí dizendo:

“E neste momento, concidadãos, só me resta dizer que a maior parte do discurso que vocês ouviram com tanto interesse foi apenas a repetição do argumento pelo qual o vizinho de vocês, o senhor Bunce, me convenceu de meu erro.

Este foi o melhor discurso da minha vida, mas devo todo crédito a ele.  E espero que ele esteja satisfeito com seu convertido e que suba aqui e lhes diga isso.”

Ele subiu na plataforma e disse:

“Concidadãos – Fico muito satisfeito em atender o pedido do coronel Crockett.  Sempre o considerei um homem totalmente honesto, e estou convencido de que ele irá cumprir fielmente o que prometeu hoje.”

Ele desceu, e o nome de David Crockett foi ovacionado de uma maneira que nunca havia sido antes.

Não sou de chorar, mas me deu um nó na garganta e senti lágrimas escorrerem pela minha face.  E lhe digo hoje que a lembrança daquelas poucas palavras ditas por aquele homem, e aquela ovação honesta e sincera que eles fizeram, vale mais para mim do que todas as honras que recebi e toda reputação que criei, ou ainda terei, no Congresso.

Agora, concluiu Crockett, o senhor sabe por que fiz aquele discurso ontem.

Só tem mais uma coisa que eu queria dizer.  Lembra-se que eu propus a doação de uma semana de salário?  Naquela casa existem homens muito ricos — homens que não pensam duas vezes antes de gastar o valor de uma semana de salário, ou de até três meses, em um jantar ou em uma festa quando isto os ajuda a conseguir algo.  Alguns desses homens fizeram bonitos discursos sobre o grande débito de gratidão que o país tinha com o falecido — um débito que não poderia ser pago com dinheiro — e sobre a insignificância e baixeza do dinheiro, particularmente uma quantia tão insignificante como estes $10.000, quando comparada a honra da nação.  No entanto, nenhum deles aceitou minha proposta.  Dinheiro para eles é lixo, quando é para ser tirado do povo.  Mas é a coisa que eles mais desejam, e pela qual muitos deles sacrificam a honra, a integridade e a justiça para conseguir.

Tradução de Fernando Chiocca

David Crockett   foi um político, militar e herói nacional americano. Representou o Tennessee na Câmara dos Representantes dos EUA, serviu durante a Revolução do Texas e morreu na batalha do Alamo.

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